sábado, 15 de julho de 2017

RELEITURA

RELEITURA é o tema. Ultimamente, vem me impressionando a coragem de Renato Braz e, mais que a coragem o talento, para colocar voz em canções já consagradas nas vozes de outros grandes: E daí, na qual já havia a voz de Milton Nascimento; Quero ficar com você, que já foi cantada por Bethânia. Quando falamos da música popular, entretanto, talvez a releitura mais contundente é a que Jimi Hendrix faz All along the watchtower, do Dylan. Alí, o encantador de guitarras ultrapassa todos os limites. Desrespeita todas as regras. Reinventa tudo a guitarra.
No âmbito das artes plásticas, duas releituras me chamam muito a atenção: Carcass of beef, de Chaïm Soutine que dialoga com Rembrandt e, mais que todas as anteriores, a tremenda pintura de Magritte intitulada O balcão de Manet, cuja referência é óbvia.
Eu mesmo, entre 2010 e 2012, escrevi um romance intitulado Fruta que se pretende, em primeiro lugar, uma releitura de José de Alencar, que por sua vez dialoga com A dama das Camélias.

Qual é sua releitura predileta?

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A SEGUNDA NOITE

O sagrado se mostra de modo distinto a cada uma de nós. Se sois sério, virá o grave. Se sois violento, o trovão. Se acreditas na matéria, o sagrado será a pedra, ou a água. Se acreditas no espírito, será a luz. Regras, trabalhos e dogmas não são necessários. Tudo o que se pede é que se volte ao menino, até antes do EU, ao tempo em que nada se desejava, pois não havia divisão entre o Ser e o mundo. Quando tudo aquilo que aprendemos durante a vida se torna inútil diante dar dor, do sofrimento... Quando orgulho e força de vontade de nada valem, então voltamos ao menino e o Mestre surge no mesmo momento. Do vazio faz-se a Voz, da Voz faz-se o dois, o dois engendra o três e o três é a certeza de que nada morre: no interior do cadáver, nasce o verme. Não se ouvem vozes vindas de fora, mas o próprio Ser se divide em dois. Aquele que pergunta e o outro que responde, consola e guia. Neste instante, a crise estanca e renasce a esperança. A dor ganha contornos e se torna, portanto, mais fácil suportá-la. Durante duas noites, Guaccaluz e o Mestre conversaram. O mestre queria se despedir, mas Guaccaluz, tal qual menino mimado, não deixava.
Como Guaccaluz era contra todo espírito de gravidade. O mestre contou uma piada:
- Sabes, Guaccaluz, até o fim da vida serás feito menino... Mesmo teu corpo não envelhecerá.
E Guaccaluz, todo contente, perguntou:
- Sério?
- Sim – disse o Mestre - quando houveres completado setenta anos, aparentarás apenas sessenta e nove. Agora dorme, criança, e me deixe descansar😜

E O OLHO SUJO DE ASSOMBRO

Era certeza, toda vez que passava o filme do Rocky Balboa, no outro dia tinha pelo menos umas dez brigas na escola😲. Logo que a película terminava, saíamos pelas ruas do bairro, correndo, dando socos no ar, treinando feito o garanhão italiano. Aprendi a imitar até o olhar - meio blasé, meio burro - do Stallone. Cada menino um Rocky em sua cabeça. No outro dia, o pau quebrava. Quando passava o Rambo ou o Exterminador do Futuro era a mesma coisa.
Nós, meninos, somos treinados desde cedo no mito do heroísmo. “Se tudo der errado, serei jogador de futebol.” – costumava pensar. Humilde, não? Bombardearam-nos com a ideia de que estávamos destinados a grandes feitos. Isso não começou com Hollywood: que é a Ilíada se não a narrativa do heroísmo dos gregos? Aquiles preferiu a morte em troca de uma fama que atravessaria os séculos. Na Odisseia, o herói se perde, demora vinte anos; mas, quando volta para casa, junta-se ao filho, ao pai e mata os traidores para, em seguida, repousar junto à sua Penélope.
O tempo para nós, porém, passa e, aqui no subúrbio, nada acontece. Venderam-nos um guarda-chuva furado. A maioria de nós passa a viver numa espécie de ficção, com trilha sonora e tudo, na qual o cotidiano mais banal são as batalhas, o chefe é Apollo Creed e nós continuamos Rocky em nossas cabecinhas. A maioria dos homens vive em silencioso desespero. Alguns se perdem ainda mais e precisam das drogas e do álcool para continuar se aventurando numa realidade paralela. Tenho amigos que caíram e não conseguiram se levantar. Ontem, estava indo encher os pneus da bicicleta, quando um deles me viu do bar e veio correndo pedir dez reais com uma conversa fiada. Dei o dinheiro. Não estava muito preocupado com a verdade. Ele riu, continuou insistindo com a mentira.
- Tudo bem – eu disse – só não vá usar essa grana para encher a cara de pão, hein!
Ele riu mais alto. Eu ri também. Voltei para casa e tirei os álbuns de foto antigos do guarda-roupa🕵️‍♂️: desde pequeno, sempre arranquei a casca dos machucados. Numa das fotos, estamos agachados; eu com o braço em volta dos ombros dele; a bola quietinha no meio de nós. Não havia diferença, seríamos grandes um dia!
Porra, Wilson, em que momento as coisas deram ruim?

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A BANALIDADE DO MAL

Porque existe muita brutalidade no mundo, há tanta gente doida, perdida, má. Basta ir a qualquer competição de futebol infantil para ver os pais digladiando-se na plateia, enquanto as crianças – em breve expulsas do paraíso – ainda; sim, ainda; estão mais preocupadas em se divertir, em brincar. “Nunca desista, Enzo!” – Gritou um pai ao meu lado, ainda ontem, para o filho: o menino tinha cinco anos.

Ainda pensava na final do campeonato na escolinha do meu filho, quando fui tomar café agora há pouco. Do lado de fora da padaria, há um pequeno canteiro onde nasce uma palmeira e um pequeno jardim que as pessoas usam de cinzeiro. Na televisão ligada, aparecia a cara feia e plastificada do Michel Temer, vangloriando-se de sua mais recente conquista: “O Brasil está no caminho certo”! Enquanto meu pão não ficava pronto, desviei os olhos da máscara no monitor. Lá fora, uma mãe fumava e mexia ao celular, enquanto o filho, um menino de dois anos no máximo, brincava no jardim. Parecia um esquimozinho, todo agasalhado, toquinha e cachecol. Via-se que era um menino bem cuidado. Em determinado momento, o menino arrancou uma flor! Pessoas passavam apressadas... O chapeiro corria com os lanches... A balconista trouxe um cesto de pão... A mãe fumava, coçava a testa, cochichava ao celular, dava o que tinha; mas foi o filho quem levou a flor mais bela, do mais belo jardim, colhida depois de enfrentar frio, neve, intempéries, batalhas, tempestades, à sua rainha. Ela jogou o cigarro no chão. Recebeu a flor sem desligar o celular. Eu lancei um pedaço de pão até um cachorro vesgo que olhava faminto do lado de fora. O menino voltou a brincar. Pouco depois, a mãe desligou o celular, atirou a flor ao chão, pegou a mão do filho com pressa e o arrastou até o carro. Em nenhum momento ele deixou de olhar para trás, para o troféu caído no chão que as pessoas esmagavam ao passar.

terça-feira, 11 de julho de 2017

MÁS COMPANHIAS

Desde pequeno, minha mãe sempre dizia: “filho, cuidado com as más companhias, quem com porcos se mistura, farelos come”. Conselho salutar; embora, como sói ocorrer, o próprio conselheiro nem sempre segue o conselho dado.
Certa vez, a velha ficou com o nome sujo porque tirou uma televisão nas Casas Bahia para um colega que tinha já tinha o próprio nome incluído no cadastro do SERASA. Outra vez, contratou o marido de outra amiga que se dizia pedreiro, mas que só queria saber de beber cachaça e tocar violão. O cara pegou uma boa grana na entrada do trabalho, estragou material, fez uma coluna toda torta na garagem e quase matou o pai do coração. Por pouco não deu divórcio😯!
Nada, entretanto, se compara à vez em que uma amiga da minha mãe resolveu fazer curso de cabeleireira. Adivinhem quem sobrou como cobaia🤔?
Num sábado de manhã, lá fomos meu irmão mais velho e eu servir de cobaia à futura visagista. Sentei na cadeira – as duas tagarelando – e a mulher deu início ao trabalho. Acertava de um lado, entortava do outro. A professora passava, olhava, fazia uma careta... Nada, nada bom... Eu, desesperado, olhava a mãe pelo retrovisor, em tempo de gritar HELP! A própria estudante lá com cara de preocupada... Minha cabeça cheia de caminhos de rato e buracos... E aí mãe nem aí, falando mais que a boca. E, então, de repente, não mais que de repente, a mulher deu uma tesourada e eu só senti a fisgada, vupt! Com uma mecha de cabelos, foi-se embora um bife da minha orelha😲! O sangue espichou no espelho, a mulherada correu... E aí a mãe se desesperou. Pegaram-se toalhas, várias, e trabalharam até estancar o sangue.
Nada de grave no final, felizmente; mas, até hoje, quando alguém me convida para fazer algo e eu fico com o pé atrás, passo a mão na pontinha quadrada da minha orelha é penso: “melhor não, quem com porcos se mistura, farelos come”.