quarta-feira, 28 de junho de 2017

QUANDO OS CAMELOS CHORAM

Momentaneamente não estarei só. No útero, acompanhava-me a placenta; no colo, os braços da mãe; no parque, os olhos do pai e, nas primeiras brigas, o cuidado do irmão mais velho. E, quando o inverno chegar, quero adormecer entre os meus; velhinho, netos e filhos à beira da jangada, ajudando-me a atravessar o rio. Sozinho, nem corno um homem consegue ser. O outro se instala por dentro e se torna parte de mim, que também me lanço em direção a alguém. Então só existe o rio e isto que chamamos de eu é o obstáculo, o pequeno graveto em atrito com a água que forma um redemoinho e depois desaparece.
Sempre vivi rodeado de amigos. Eles tornam meu riso mais alegre e o fardo mais leve, quando o fardo vem. Tenho amigos em São Paulo, em Minas, no Rio, no Nordeste. Eles me dizem que, quando eu chegar, a porta estará aberta. Tenho amigos na Espanha, em Portugal, no Japão. Tenho amigos em diferentes lugares do espaço e, o mais estranho, do tempo. Mal amanhece o dia e convido Drummond para um café com pão na chapa na padaria. De tarde, saio pra caminhar com Friedrich, filho de um pastor alemão. Quando anoitece, invoco Charles e Agenor, caras que não conseguem dormir cedo: “a solidão é pretensão de quem fica, escondido fazendo fita”. A arte é uma forma de amizade que atravessa o tempo. Um modo de dar colo aos que foram escorraçados, de acolher os que foram incompreendidos, de abraçar os que foram esbofeteados. Durante muitos anos, Vincent van Gogh estudou e incorporou elementos da pintura japonesa à sua própria pintura. Um século depois, Akira Kurosawa, o maior cineasta japonês, abre o seu filme Sonhos, com uma sequência de quadros do atormentado pintor holandês. Eu, nos meus próprios sonhos, vejo-os caminhando lado a lado, numa manhã ensolarada, em Arles, batendo papo. Neste exato momento; meu irmão, minha irmã; você não está só. A Humanidade inteira, com tudo o que tem de bom e de ruim, te faz companhia. Abre a janela e deixa o ar entrar!

O Amor é Deus.

sábado, 24 de junho de 2017

E QUANDO VIREI GÓTICO?

Meu, que tristeza! Eu nunca fui do tipo que você pergunta: “E aí, como você tá?”. E o cara responde: “Só alegria!” Mas também nunca morei em Manchester. Tudo começou com a leitura d’O morro dos ventos uivantes, depois foi o som do Joy Division. Como Ian Curtis, eu queria morrer aos vinte e três anos. Quando você tem quinze, vinte e três parece tempo para o caraleo. Sonhava com o meu velório tocando Love will tear us apart... As meninas chorando... Os amigos desconsolados... Todos com aquele sentimento tipo: um menino tão bom! Um cara tão legal! Um gênio entre nós e não demos valor, íamos todos à palestra do Mia Couto😪! Tem de morrer pra germinar. Só pode.
Nessa época, eu já tomava conta da Casa do Norte que abri com meu velho. E não tinha mais Luiz Gonzaga pra ninguém. Quer comer seu jabá, tomar seu caldo de mocotó, pode tomar, mas vai ser ouvindo The cure e gemendo na beira do abismo! Nordestino não tem motivo pra andar alegre. Vocês não sabem da seca, da corrupção, porra? Os clientes ficavam indignados. O movimento diminuiu. O pai brigou e aí eu fiquei ainda mais triste. Pô vida cruel, meu coroa não me entende! Troquei o The cure pelo Sisters of Mercy. Durante a noite, eu ia gemer e beber vinho com meus amigos no Cemitério da Saudade. De vez em quando, esquecia que era triste e contava uma piada. O povo ria um pouco; mas, depois, todos lembrávamos que éramos tristes e voltávamos à gemedeira: estão destruindo o planeta! Ninguém me entende! Estou na fase do exército e não consigo arranjar emprego! Fernando Henrique filho da puta! Fala aí tínhamos ou não motivo para ser tristes? Um dia, cheguei de madrugada e a mãe estava me esperando com o terço na mão:
- Dan, vamos ter uma conversa séria.
- Pô mãe, conversa séria a essas horas?
- Pois é, senta aí, agora! – o papo era sério mesmo; dessa vez, eu teria motivo pra chorar.
- Que foi?
- Dona Creusomar, mãe da Rubicreusa, disse que viu tu cheirando droga com um monte de vagabundo no cemitério da saudade😲!
- Pô, mãe, Dona Creusomar é a maior fofoqueira, todo mundo sabe!
- É, mas quando ela disse que a Jucileilde tava grávida, sete meses depois o nenê tava chorando. A partir de amanhã, não quero mais tu andando com esses vagabundo. E pode parar com esse negócio de só vestir roupa preta. Um calor desgraçado, sol rachando a cabeça, 40 graus. e tu aí, só de preto. Dá até agonia...
- Pô, mãe, a vida não faz sentido!
Ela levantou a varinha feita de um galho do pé de manga...
- E essa varinha faz?
Fazia. Sim, sim, craro! Dia seguinte, coloquei uma camiseta vermelha e fui ser rebelde ouvindo Roberto Carlos na Casa do Norte. Os fregueses ficaram contentes. O pai também. Tudo voltava ao normal...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROCRASTINAÇÃO, CAOS E (É) PROGRESSO

Já não esquento a cabeça com o Brasil, até porque sou brasileiro. Nosso país é uma longa espera, uma demora, uma eterna procrastinação: igualzinho a mim. Primeiro seríamos a terceira opção: entre o imperialismo e o comunismo, seríamos a alegria e o samba. Depois seríamos o topo do mundo, ouvi dizer, em dez anos, superaríamos os E.U.A. Aí, depois, seríamos não sei o que lá... O Brasil nunca acontece, é sempre véspera. Quer saber? Ainda bem! Não nos imagino mandando no mundo, prefiro um feriado; melhor deixar isso pra depois de amanhã.
Primeiro eu amava Macunaíma. Depois eu odiava Macunaíma: tipo "que é isso, sou cidadão do mundo, gosto mais de Chuck Berry que de Luiz Gonzaga." Agora, amo Macunaíma outra vez. Disse o alemão Gottfried Benn: “quando olho pra mim só vejo a sociologia e o vazio”. Você consegue imaginar um Heidegger brasileiro? Alguém escrevendo Ser e tempo num quiosque em Xerém? E um Zeca Pagodinho alemão, na Floresta Negra? Caetano dizia que nosso gênero literário seria a canção: errou. Nosso gênero literário não é o ensaio, nem o poema, nem a canção: é a piada – amanhã explico melhor isso. Entre provar qualquer coisa e deixar a vida me levar, deixo a vida me levar. Dou risada. Toco o barco. Detesto toda forma de pragmatismo, de análise; toda coisa séria, burocrática, antiburlesca. Sou contra todo espírito de gravidade, assim como Nietzsche, que odiava os alemães, e que se encantou com a Itália porque não esteve no Brasil: já imaginaram um Nietzsche brasileiro? Seria triplamente nietzschiano. E Shakespeare, que, depois de uma visita a Salvador, escreveu: “O caos concebeu sua obra-prima.” Bartleby tinha sangue brazuca. Lao-Tsé e Chuang Tzu também. Melhor não perturbar a ordem do Cosmos: quanto menos interferirmos, melhor, sabe... E Bezerra da Silva me fala mais íntimo que Descartes. Se colocarmos os dois no liquidificador, beberemos a antropofagia. Como não temos caráter fixo, incorporamos, roubamos, comemos, bebemos o caráter de tudo o que pinta por aqui.
O que nossa intelligentsia tem de perceber é que não queremos ser a França, a Alemanha, os Estados Unidos e nem mesmo a Rússia - embora eu perceba um parentesco com essa última: a cachaça e a vodca são irmãs gêmeas, mas nós temos o sol que os russos não têm. - Quem é maior Marx ou Tom Jobim? Comparação estapafúrdia não é mesmo? Cada qual no seu quadrado. Os pensadores do Brasil precisam descobrir nosso quadrado, mas as melhores universidades fazem colóquios de uma semana para descobrir se o signo deleuziano é do âmbito virtual ou atual😲! O povo queremos coisas simples: a pança cheia, um pouco de sonho, um tanto de música, as crianças na escola aprendendo, uns médicos no hospital, pracinhas bonitinhas; só isso já basta. Não queremos disputa, não queremos comandar o mundo. Deixa a vida me levar, deveria ser o lema estampado na bandeira. Ordem e progresso é lema pra francês, americano, alemão...

quarta-feira, 21 de junho de 2017

QUANDO UM MIA COUTO FALA, O OUTRO ABAIXA A ORELHA

Confesso que tenho uma tremenda má vontade para ouvir artistas e, em especial, escritores falando. Acho um porre; mas, por insistência da patroa, fui lá ver o Mia Couto. De tanto que enrolei, quando chegamos, a palestra já tinha terminado. Dei graças a Deus, uma amiga, porém, convidou:
- Vamos tomar um café com o Mia, vocês não querem vir com a gente?
Se tivesse superpoderes teria fulminado a moça na mesma hora com um raio cósmico, mas sou apenas um homem comum.
E lá fomos nós.
Pra começo de conversa, desconfio de quem usa cachecol e camiseta e era bem assim que tiozinho estava vestido. Daí por diante, ele podia ter escrito O idiota que eu leria de má vontade. Inveja, vocês vão dizer.  E acertaram. O pessoal, professores universitários, escritores, artistas plásticos, gente de teatro, babava ao redor do bom angolano.
Sentamo-nos para o café. Ele pediu um pão de queijo. Bebericou o café com o dedo mindinho levantado, mordiscou a iguaria mineira e então fez menção de falar. Todos em volta fizeram silêncio. O gênio abriria a boca! Ó pá! Um dos professores, inclusive, acenou para que os pássaros nas árvores parassem de cantar: o pior foi que os pássaros obedeceram. Os carros na rua pararam...
- Exte paum d’caijo tem textura dilicada.
- ÓÓÓÓ!!! – disse um mar de vozes. – Ele podia dizer que o pão de queijo estava macio, mas não, quanta sensibilidade! E que inteligência! Um poeta! Textura delicada! Que coisa linda! Maravilha! Só um gênio mesmo... – Daí em diante trabalharam as selfies para o facebook.
Eu também tinha pedido meu pão de queijo, de modo que pensei: “dos livros não sei, mas posso fazer melhor que isso aí.” Mordisquei também meu pão de queijo e metralhei, levantando o pão de queijo como se fosse a hóstia sagrada:
- Exte paum d’caijo extá taum quente quanto a alcova da Lucíola, de José de Alencar.
A primeira que me deu um tabefe na  glândula pineal foi minha própria companheira. “Cala a boca, abestalhado”. Os outros se contentaram em me esbofetear com os olhos. Daí pra frente não disse mais nada. Pus as mãozinhas entre as pernas, igual criança arteira e fiquei pensando apenas na nossa necessidade de ídolos, de celebridades. Aquele povo ali não diferia muito das adolescentes que ficaram seis meses acampadas para ver a um show do Justin Bieber. Seu Justin Bieber era apenas mais estragadinho. Pensei também em nosso complexo de vira-latas; com tanto escritor ruim aqui para idolatrar, precisamos importar mais um de fora.
imagem: Ramón Muniz

terça-feira, 20 de junho de 2017

O CASO DO CABRITO

O áudio era Antônio Marcos, Roberto Carlos, Tião Carreiro e Pardinho, ou Gonzagão.
O bairro onde moro, no extremo leste de São Paulo, é um reduto nordestino em São Paulo. Temos até uma Av. Nordestina. Nos anos 90, pedi a conta da padaria no Bom Retiro onde trabalhava e, com a ajuda do meu pai que continuou trabalhando numa metalúrgica, abri uma Casa do Norte. O problema é que sempre tive mais dom para a farra que para negócios, mas isso não vem ao caso aqui.
Foi num domingo de tarde, depois do jogo, que combinamos de fazer um cabrito na quarta-feira à noite, também dia de jogo. Sempre fazíamos um galo. Mas alguém deu a ideia, os outros acataram, e ninguém aguentava mais tanto galo. Fizemos uma vaquinha e ficou combinado que, no dia seguinte, Mula-manca – aposentado - e eu compraríamos um cabrito ainda vivo para matar e preparar na quarta. Aí, era só descer cachaça e brahma gelada.
E na segunda-feira de manhã, lá fomos nós. O sítio não era muito perto e andávamos devagar porque Seo Mula-manca sofria de gota e não conseguia acelerar o passo. Compramos um cabrito exemplar. Amarramos o bicho com um pedaço de cordão de varal e nos preparamos para a jornada de volta. É árduo o caminho do autoconhecimento, irmãos e irmãs.
Como a viagem era longa e cada um de nós tinha uma pedra de sal na garganta, paramos para tomar uma gelada logo que saímos do sítio, com um quebra-gelo para acompanhar. Andamos mais um pouco e paramos em outro boteco, repetimos a dose. Mais um quilômetro e outro boteco. Aqui o que mais tem é igreja, boca e bar. Jogamos um pouco de dominó valendo cerveja. O cabrito amarrado no poste lá fora. Como éramos parceiros de longa data, ganhamos vários raios. Saímos de novo, mas tinha muitos bares mais antes de chegarmos até nosso destino.
Quando chegamos, meu pai já tinha aberto o estabelecimento. Passavam das cinco da tarde. A turma de sempre saboreava seus aperitivos.
- Ué, cadê o cabrito? – O Tonhão perguntou logo da porta.
O Mula-manca, com uma ponta da corda na mão, apontou para a outra ponta e foi então que vimos. Não era um cabrito, não era uma cabra, não era um porco, não era uma ovelha, não era o super-homem e nem a mulher-maravilha... Na outra ponta da corda estava um cachorro sarnento, banguela, mais feio que bater na mãe por causa de salsicha.
O jeito foi rir e cuidar do cão que morreu menos de um mês depois.

Na quarta-feira, comemos galo outra vez. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS?

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS? Quem são esses seres que me envolvem em orgias etéreas, ou acalantos maternais? Dizem os junguianos que são expressões da anima, a parte feminina da psique masculina. Certos pós-junguianos como, por exemplo, Roberto Gambini, Ginette Paris e James Hillman, ampliam o conceito e apontam que se, no fundo, toda psique é regida pelo inconsciente coletivo, então anima e animus seriam expressões do masculino e do feminino universais: o diagrama do taiji, como já sabiam uns chineses de muito, muito tempo atrás. Mas, por serem tão reais, duvido que sejam apenas imagens sem substância. Cada uma delas tem um caráter, uma silhueta que me aparece em detalhes, com espinhas, celulites, cabelos longos ou curtos, e tudo o mais... Todas têm um modo de falar próprio e, inclusive, um sotaque. Nunca saio de uma noite em que sonho com uma elas do mesmo modo que entrei. Essas mulheres em meus sonhos são seres que nunca encontrei na vida desperta. Há uma delas, a mais depravada de todas, que retorna mais frequentemente. Sempre vem acompanhada por outras mulheres. Sei pouco de sua vida. Seu assunto é o silêncio e o sexo; desenfreado, sem regras. Há outra, sempre vestida de azul claro, que tem sotaque português, mas fala um português muito, muito arcaico. Entendemo-nos, porque, nos sonhos, não precisamos de uma língua comum para nos entender. Ela é pálida, magra, parece meio adoecida. Sempre traz palavras de conforto e tem uma fé inabalável no Bem. Algumas delas, aparecem uma vez para nunca mais voltar, mas surgem com um riqueza de detalhes físicos, anímicos e psicológicos que não há como crer que sejam criações de uma mente adormecida. Seriam fantasmas? Seres de outro tempo e lugar? Expressões de desejos reprimidos? Se soubesse desenhar, faria retrato de cada uma delas, tamanha é a realidade com que me surgem. Como não desenho ou pinto, tento anotar tudo em detalhes num diário de sonhos

sábado, 17 de junho de 2017

, POIS OS ANIMAIS SABEM MORRER

A primeira gata que tivemos aqui em casa foi a Clarice. Ela tinha esse nome em homenagem à minha escritora predileta: Cecília Meireles. Clarice era uma gata siamesa, com os olhos azuis e os pelos do rosto mais negros que a asa da graúna. De todos os gatos que tivemos, ela era a mais geniosa, a mais orgulhosa: uma rainha. Não gostava de demonstrar carinho. E só aceitava receber carinho quando bem entendia. Certa vez, inventei de dar banho nela e quase fui parar no hospital para tomar pontos nos arranhões que, a bem da verdade, eram cortes e não arranhões.
A dureza de Clarice, entretanto, assim como a da escritora, era apenas superficial. No fundo, ela era pura ternura. Quando dormíamos, ela se deitava bem no meio da cama e ficava sem jeito quando acordávamos primeiro e a encontrávamos ali, feito uma menininha entre os pais. Saía miando brava, desconfiada, olhando para trás e pulava a janela.
                Clarice ficou conosco por pouco mais de um ano e então desapareceu. Foi terrível quando sumiu. O João, meu filho funkeiro, chorou. Saímos procurando a gata pelo bairro. Imprimimos fotos dela e colamos no açougue, na quitanda, na farmácia, na padaria... Eu, entretanto, tinha um segredo que não podia contar ao João: sabia que Clarice não voltaria mais, nunca mais.
                Eu não andava muito bom da cabeça naquela época, mas percebi, durante a tarde, que ela estava mais triste que o normal. Ela não era brincalhona, Clarice, era séria, mas não triste. Naquele dia, os olhos azuis dela estavam opacos, melancólicos. Quando a noite chegou, ela recusou a comida. A gente só percebe as coisas quando é tarde demais. Durante a madrugada, acordei. A coberta estava encharcada de vômito. Levantei e troquei; não dei, entretanto, a devida atenção. Clarice não estava, o que também não era nada anormal uma vez que os gatos têm hábitos noturnos.
                Dia seguinte, chacoalhei a vasilha de ração e ela não apareceu. Sempre vinha correndo, mas, naquele dia, não apareceu. E não voltou nunca mais. No mesmo dia, perguntei para o rapaz que recolhe material reciclável no bairro. Ele disse que tinha visto uma gata, com as características que eu tinha descrito, morta, embaixo de uma árvore, na outra esquina, duas quadras rua acima. Ela tinha partido para morrer longe das pessoas que amava. Não sei se a envenenaram, nem o que aconteceu, porque foi tudo muito rápido. Mas vi que era Clarice. Coloquei-a numa caixa de sapatos e a enterrei num terreno baldio, sob um pé de manga, enquanto o João estava na escola.

                Os animais não fazem escândalo para morrer. Não querem que aqueles que os amam sofram. Pensam no outro até na hora de partir... Encaram o fim com muito mais dignidade que nós, humanos, que estamos sempre batendo as pernas, gritando, fazendo barulho, Arte. Que é a literatura se não o trabalho de um sujeito que passa a vida toda brigando com a morte, dizendo sempre as últimas palavras?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

SERÁ QUE AINDA PODEMOS FALAR DE PLÁGIO?


Já não sei se podemos falar de plágio. Talvez a única forma de plágio seria a cópia de um livro do princípio ao fim. De resto, tudo é apropriação, ou, como prefiro, roubo. Já não é possível inventar a roda, cuja idade soma mais de seis mil anos. Então tudo o que se faz, é feito de um topo de cultura; desviando, ou desenvolvendo elementos pré-existentes. Quando Duchamp expõe um mictório intitulado a Fonte, ele não precisa fabricar o mictório com as próprias mãos, basta desviá-lo, tirá-lo de seu campo semântico. Na filosofia, o mesmo se dá com um Deleuze, por exemplo, cujos conceitos mais famosos são extraídos – e retorcidos - das obras de outros filósofos, biólogos, matemáticos e escritores. O CsO já é em Artaud, mas Deleuze o desenvolve enquanto conceito. O próprio conceito de autoria, de sujeito, foi posto em xeque pelos estruturalistas e pelos franceses daquela turma de Deleuze, Blanchot, Guattari, Foucault, os quais, no entanto, jamais deixaram de assinar uma de suas obras e de receber os direitos autorais.
Então acredito no seguinte, se você insere algo que já existe num novo universo e isso - que pode ser um excerto, um sample musical, uma colagem – ganha novo horizonte de sentido, então não há plágio, mas arte.
Os filmes de Tarantino são colagens de cenas de milhares de filmes de ação obscuros anteriores que ele revigora e insere num outro contexto mais cult e sempre relacionado ao seu tema predileto: a vingança; que, a bem da verdade, também não é um tema novo: temos aí O conde de Montecristo, O morro dos ventos uivantes, etc... Então Tarantino é um plágio? Sim e não, acho que essa palavra não faz mais sentido, nem essa nossa gana de manter autoria em tempos de rede. Vejo gente se achando plagiada o tempo todo, principalmente nas redes sociais. O mais importante são as ideias e não o estrume de onde elas brotaram. Por outro lado, é certo que eu ficaria muito bravo se alguém estivesse ganhando muito dinheiro com um texto que eu tenha escrito. Tenho uma lei, nunca roubo dos pobres, só dos ricos. Então quem lê o que escrevo sabe que tem muita coisa lá, de Shakespeare a Murilo Rubião, mas esse monte de coisas, já não é nenhuma delas. É o que eu faço, meu retrato em palavras. Uma combinação de variáveis, roubos, leituras e experiências que só existe porque eu existo – eu acho.
Nos anos 1970, Neil Young lançou o melhor álbum de rock ao vivo de todos os tempos: Rust never sleeps – A ferrugem nunca dorme. Neil era um cara bruto - bem diferente de seu conterrâneo Leonard Cohen – e gostava de trabalhos manuais. Vivia, portanto, nas lojas de ferragens adquirindo material e ferramentas para os trabalhos em seu rancho. Foi lá que viu o anúncio de um produto para preservação do ferro: a ferrugem nunca dorme. Transposto para o universo dos anos 1970, quando muitos de seus amigos, inclusive o guitarrista da Crazy Horse, tinham morrido por conta das drogas, da tristeza, do sonho morto, como cantou Lennon, a frase ganhou uma conotação completamente nova. A ferrugem era a desesperança.

E então, meninas e meninos, será que ainda podemos falar de plágio?

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A DOCE MORTE DE MILTINHO

Pense num cabra namorador! Agora multiplique por nove e some oitenta e três. Esse aí era Miltinho. Quando o conheci, há vinte e tantos anos, ele tinha pouco mais de sessenta e estava no quinto casamento, aceitando currículos para o sexto.  Onze filhos... Vai vendo.
              - Bicho, que vantagem tem um homem nesse mundo sem mulher? Nenhuma, a não ser poder mijar de porta aberta. Mas também a gente não tem de passar a vida toda com a mesma. Esfriou o café, é melhor fazer outro que requentar.
                Miltinho começou cedo a vida sexual. Com seis anos, no Nordeste, já traçava tudo que era bicho: de vaca a pardal. Com dez já frequentava a zona, onde mais tarde se apresentava tocando flauta, violão e berimbau.
                Era sujeito galanteador, Miltinho. Gostava de dar presente às moças.
- Vinha passando ali no Brás, quando vi essa tiara e me lembrei de você. Tome, Rosinha, é sua... Não há boniteza que não fique ainda mais bonita com um adorno de tão fina elegância.
De vez em quando, na maioria das vezes quando o dinheiro sumia, ele mesmo fazia o presente - era artista -, o qual podia ser uma pulseira, um poema, um pingente de prata, uma balada para violão... Não importava o tamanho da crise, tinha sempre alguma coisa em caixinha enfeitada para presentear uma Dona qualquer.
Usava calças xadrez, sandália de couro, cabelo grande; meio boiadeiro, meio hippie, outro tanto beatnik. Já disse que era artista! E como todo artista era sensível. Não entendia porque, com o tempo, as mulheres tomavam raiva dele.
- Olhe, Dani, veja você se sou um cabra ruim – não era –, ajudo quem posso e quem não posso, canto, bebo, brinco, não guardo mágoa de ninguém, mas tenho esse defeito de gostar demais de mulher. Quem nesse mundo é perfeito, némemo?  No final, elas sempre jogam as coisas na minha cabeça... Minhas roupas no quintal... Uma tristeza... Quando partem, não vão embora sem antes quebrar a casa inteira. Diz aí tem culpa eu?
Tinha não; mas eu, precavido mineiro que sou, sempre que ia visitá-lo, por via das dúvidas, deixava a mulher em casa. O caboclo tinha fala aveludada.

Ontem Miltinho morreu. Morreu Miltinho, coitado... Tão sem-vergonha, tão safado, tão moço, não tinha nem noventa anos. Morreu como queria, com um sorriso nos lábios. Em pleno dia dos namorados, foi flagrado por um marido indignado dentro do guarda-roupa da família. Levou cinco tiros. Já disse que não guardava mágoa. Quem o viu no caixão podia jurar que sorria. Viveu bastante e morreu fazendo o que gostava, o danado. Tinha mais de sorrir mesmo. Vá em paz, meu bom Miltinho boiadeiro, mas deixe pra trás o viagra e veja se respeita as santas no céu, visse?! 

Entrevista com Samuel Malentacchi: O abismo é um instante

1 -) Samuel, em Poética, Manuel Bandeira diz: “Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto / Expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.” Em Tesouro, você escreve:  “me lembro da vez / em que você mijou nos meus pés / enquanto tomávamos banho / naquele hotel escroto na Armênia; / - foi a maior declaração de amor que já recebi.” Diz aí, você vê alianças entre a Poética do Bandeira e sua própria poética? Há uma conexão entre estas declarações viscerais?
bem, Daniel, vejo aproximações & distanciamentos. Bandeira teve um papel importante na minha formação de leitor de poesia! no decorrer do traço, fui me afastando, mas trago comigo as leituras excessivas do livro “a cinza das horas”, primeiro do Bandeirão, com aquele tom melancólico & delicioso sabor de hemoptise. Talvez, com o peso dos anos tenha mais conexão as visceralidades que com Manuel! me agrada muito a ideia de escrita enquanto queda & também horror, no sentido de relato (distorcido & delirante na mesma medida em que tenta ser registro fiel) do quanto existir é um espanto.

2-) Abismo é uma palavra recorrente nos seus poemas. Em Abrindo Abismos, você escreve: “pertenço à classe das fendas”. Além disso, o poema que encerra o livro intitula-se O Abismo é Um Instante. Quando abismo não aparece, surgem vocábulos similares como, por exemplo, oco. Certa vez, comentando a poesia de Artaud, Blanchot escreveu que, em Artaud, o que é primeiro não é o ser, mas a fenda e a fissura. Na canção Anthem, Leonard Cohen escreveu algo como: “Há rachaduras em tudo é assim que a luz entra”. E no Tao Te Ching, Lao-Tsé diz que erguemos paredes e casas, mas é pelas janelas e portas que a luz e nós mesmos podemos entrar. Sem mais delongas, qual é a importância do abismo, da fenda, do vazio na sua poética e na sua vida?
uau, que pergunta difícil! talvez nunca consiga respondê-la, o que não é a mesma coisa de não ter o que falar a respeito. a questão da fenda, da fratura, do abismo, são inquietações que me acompanham desde muito (sem que eu soubesse disso, claro), acho que o abismo me é ontológico! penso que talvez só seja possível estar no mundo humano através da fenda. a escrita se faz letra na fratura. e talvez possamos pensar esse vazio, que é diferente do Nada, ao menos pra mim, no sentido de um lugar. um lugar entre eu & o(s) outro(s). por exemplo: o que eu escrevo não é o que o outro entende, e o que o outro me comunica não é o que eu entendo. desse equívoco, desse tipo de ruído & desencontro, é possível criarmos um espaço potencialmente habitável. nem em mim, nem no outro. mas entre. um lugar quase, paradoxal e precário, um terceiro lugar viável onde talvez possamos construir um idioma possível ao “nós”. esse “fazer-junto” este terceiro lugar é possível através de um gesto corajoso, um convite ao diferente (o não-eu), para que ele coabite & construa comigo esse espaço quase, insustentável por natureza. possível por definição. esse espaço entre é lugar do Fazer, de um fazer poético, que não tem necessariamente ligação com um fazer poesia, verso. Vejo essa disposição poética no sentido de uma condição de Fazer existência no momento em que ela acontece, um viver criativo. podemos fazer um bolo criativamente e nunca escrever um poema e, ainda sim, sermos muito mais criativos que um tanto de fazedores de poesia & prosa!
com relação ao nosso traçado, meu amigo, acho que o escritor, nem tanto no que escreve (o produto de sua criação, sua escolha estética & de estilo etc.), mas na disposição a inscrever, faz registro dessa queda da certeza de sermos entendidos. entretanto, só é possível registrar (fazer letra) habitando esse espaço entre, que talvez nem seja um lugar, visto que fisicamente não é visível, hehe, mas uma disposição ao risco & ao encontro com a diferença, o nada, enfim, o abismo.

3-) A sua poesia, apesar de ser sempre muito suja, muito corporal, muito rueira é também uma poesia muito culta. Há nela desde Kierkegaard, até o Fiat Tipo. Como você concebe sua estética? Não gosto muito desta palavra; mas, na falta de outra melhor...
Hehe, também me incomoda um pouco essa palavra, mas talvez possamos pensa-la no sentido de uma sensibilidade & de um estilo mesmo. na verdade, nem eu sei muito bem como cheguei nisso. meus livros anteriores são completamente diferentes uns dos outros, acho que estava na procura de um “jeito”, e talvez tenha sido encontrado por ele. podemos pensar que tem algo a ver com o que escrevi na pergunta anterior, uma disposição existencial de tentar (nem sempre é possível) despir meu narcisismo (não abandoná-lo) da certeza delirante de ser entendido pelos outros. esse gesto é cruel, um pouco masoquista & quedante. Escrevo desse lugar e por conta dele. então, se posso pensar numa estética, é a estética do chão.

4-) No poema A Nick Cave´s Call - em minha opinião um dos mais tocantes do livro, principalmente o verso: “a ausência, já presente, de meu pai.” - você descreve seu início na escrita aos nove anos, já dedilhando na máquina de escrever “frases sem sentido”. Conte-nos mais a respeito. Que forças o impeliram a escrever? A poesia está em tudo quanto é lugar, mas como foi seu início nos poemas?
então, eu era poeta e não sabia. a gente nunca sabe na verdade, né? a poesia é “o princípio do prazer no uso da linguagem”, me disseram certa vez. e eu acreditei! então, ela não precisa ter um porquê, dar respostas, indicar caminhos, elevações espirituais ou qualquer merda dessas. poesia é. é fazer. demorei muito pra entender algo disso aí. dito isso, eu não tive uma criação “intelectual”, embora tenha aprendido a ler & escrever aos três anos de idade, minha família não tem uma tradição de leituras, pra você ver, aprendi a ler com as legendas do filme “a hora do pesadelo” que meus pais assistiam, hehehe. mas eu gostava de fazer letra, sempre gostei. empiricamente, meu primeiro contato com poesia foi através do punk. me envolvi com a cultura punk aos 13 anos & aquilo me virou do avesso. lendo zines, letras de bandas como Cólera e Olho Seco, aquilo me tomava o corpo (só de falar me lembro & me arrepio nos pelos do braço!). dali foi um passo para montar minha primeira banda. acabei tocando bateria por acidente, mas de um jeito ou de outro, eu sempre acabava escrevendo as letras. meus cadernos escolares eram cheios de letras, eu tinha ideia o tempo todo, era uma maluquice do caralho, mas era delicioso! nessa fase, descobri também a poesia, no verso mesmo. Augusto dos Anjos foi o primeiro poeta que li fora daquela chatice que nos ensinam que é poesia na escola. o ensino de literatura na escola muitas vezes é tão antierótico que torna a coisa traumática, bicho! O tempo foi passando e a poesia ficou no meu íntimo, não falava pra ninguém, escondi tanto que esqueci que gostava. fui relembrar na faculdade de comunicação. E através de uma pessoa que se tornou grande amiga pra vida. o nome dela é Cris Amorim, no meu primeiro ano de curso, super bicho do mato, achando que o ambiente acadêmico não era pra mim, encontrei com ela e através dos nossos papos, ela me disse: “cara, por que você não começa a escrever poesia? você é poeta, porra!”. Ela me apresentou Maiakovski, Augusto dos Anjos, que me foi um reencontro potente. A partir daí fui lendo & lendo & lendo, conhecendo mais poemas & poetas, quando me vi, estava também escrevendo.

5-) Velho, vejo em seus poemas tudo quanto é tipo de referência – do artista enquanto liquidificador -. Desde Nick Cave e Joy Division, passando por Burroughs e o já citado Kierkegaard. Quem são seus heróis? Os caras que dizem algo que fala ao seu coração e com os quais você estabelece, de algum modo, aliança?
putz, isso sempre é transitório, né? mas a gente tem uns de cabeceira, não importa a hecatombe que nos tome, é com esse pessoal que a gente conta no final. Como escrevi na pergunta acima, Augusto dos Anjos é um deles. Tenho um ritual obsessivo de comprar várias edições do “Eu”, é meio doentio, mas acho que quero guardar ele só pra mim, tirar do mundo, saca? Hahaha. É bizarro.
Bom, se eu puder listar, Augusto já está aí, colocaria mais ou menos assim: Freud, Sándor Ferenczi, Melanie Klein, Kafka, Burroughs, Poe, Lovecraft, Ginsberg, Sylvia Plath, Emily Dickinson, Juan Gelman, Hilda Hilst, Eunice Arruda, Roberto Piva e Manoel de Barros. Essa turma faz os dias melhores por aqui.

6-) Se houve algum assunto que você queria abordar, mas este entrevistador não perguntou, essa é a hora. Diga o que quiser. Faça aí suas considerações finais. Desde já agradeço a entrevista e a atenção. Abraço, compadre.
agradeço o interesse & a leitura de meu livro! Acho que por aqui está bom, falei pra caralho, haha,
grande abraço fraterno, bicho!
Penalux, 2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

NO CÉU COM DIAMANTES - CAP. 1


- Aos dezoito anos coloquei fogo no corpo depois de ver um monge sentado em posição de lótus fazer o mesmo na televisão. Imolar-me parecia uma solução. Dores menores, por vezes, nos fazem esquecer as outras, grandes. Alguns se cortavam no colégio; outros enfiavam agulhas, alfinetes, ponteiros de bússola, de relógio, sob as unhas. Optei pelo fogo. Para tudo aquilo que as palavras não podem exprimir, existe o fogo. Era bela a imagem do monge na televisão: paz em chamas. Pensei que minha carne em brasas tivesse um cheiro doce, algo parecido com incenso, cânhamo, flor, mas carne humana queimada tem cheiro de churrasco, não difere muito da carne de vaca, ou de porco – L me diz, passando uma das mãos nas cicatrizes do outro braço.
- Posso?
Ela faz que sim com a cabeça.
Corro meu indicador direito sobre a cartografia desta cidade trágica: vales, montes, montanhas, precipícios. Em algumas partes, parece haver um nó na pele.
- Passei por algumas cirurgias plásticas. Fizeram enxertos onde precisava. Ficou bem melhor. Neste braço não resolveu muito. Algumas feridas não cicatrizam nunca; nem na dispersão. Tantos fantasmas... Mas agora o passado já não dói. O que foi era uma rocha, agora é poeira, perdeu a forma.
Em alguns momentos, L é uma criança arteira e vaidosa: prega peças às enfermeiras, faz sorrir às outras pacientes, conta piadas sujas, passa maquiagem e pinta as unhas de vermelho; em outros, a catatonia e medo medo medo e incapacidade de autoengano. A criação é a mentira-ilusão elevada à enésima potência, mas L é verdade dilacerante, inexorável. Ela nada celebra, nada constrói, mas dança dança dança na beira do abismo, escarrando em seguida na cara séria do mistério. De um dia para o outro, passa da mais bela das bailarinas à mais feia das Bruxas. Como eu, médico oriundo da escola de Viena, posso entender um mundo ao qual não tenho o menor acesso? Feito a morte, não sabemos de alguém que tenha ido e voltado pra contar a história. Do lugar onde ela vive, nada escapa sem se desfigurar em imagens demoníacas: oligofrenia. Meus mestres deram-me gavetas etiquetadas; L, no entanto, resistiu a caber em qualquer delas. Implodiu meus armários, chutou meus arquivos e foi morar na rachadura, junto às baratas, formigas e cupins. Cambaleio bêbedo atrás dela. Tateio e não encontro coisa. Busco e nada vejo. Não sei bem o que persigo junto a ela, mas o intuo maravilhoso, pleno, brilhante, sagrado - to the wonder!
Ela fala:
- Brisa, peixe, cavalos-marinhos_______________ pequenos crustáceos que seguem cegos um comando de fuga no fundo do mar____________, doutor, quem os lidera? E a cura pelo azul, não é possível? Que é o bliss se não a sombra de uma sabedoria suprema? Sagrado sem pai, o amorfo por trás de toda forma. 
Mergulha outra vez e emerge sobre um cavalo em chamas.
- Quando criança, brincava todo o tempo na lama. Esfregava a bucetinha miúda nos dedos grandes da lama. Tinha um pacto com a lama e as raízes. Escuro é o nome de um homem que conheço bem! A quem culpar se, ainda no colo, já sabia o sexo e rebolava sem culpa na superfície do pecado? Será que a culpa é toda do Pai? Mas o Pai não é só o Pai, é também o Filho e o Espírito Santo e o consultório médico, e a sala de ginástica, e as grandes cidades, e a Igreja, e o presidente, e a língua inglesa, e os Estados Unidos da América, e Hitler, Stalin; todos os nomes da história: pai e poder começam com P... Até o Maravilhoso! Vem comigo, doutor, em consonância com a velocidade sem espaço!
Ela pede que não largue sua mão; implora. A princípio, tem medo de se dissolver. Tudo é grande, e elevado, e trêmulo, e grave, e frio, mesmo o fogo. Por instantes, tenho a impressão de que não é ela quem fala e eu quem ouço; e sim a voz dela na minha boca, meu ouvido dentro de sua orelha. Não dura muito.
- Como limpar a casa depois de ser atravessada pela não-dualidade? Na quina, horizontes e fronteiras são iguais e nos assusta o aí, o simples fato de o mundo acontecer a cada instante, dependurado no nada, feito bolinha de árvore de natal; sem árvore de natal. Como lavar a louça quando tudo o que se é está em dispersão?
Não sei que responder, mas lhe presenteio com um maço de cigarros e um batom vermelho. A brincadeira e o desespero jamais estiveram tão enredados, feito serpentes que fodem lerdas, viscosas, coloridas, nos recônditos do pântano. Eu, por meu lado, não compreendo a velocidade-pura. Não compreendo coisa alguma. Meu coração semi-cartesiano tem sede de sentido; meu coração matemático lança âncora no cotidiano, enquanto que, para compreendê-la, teria de ser como ela:
Nau à deriva
Desprotegida
Sem qualquer coordenada
Entregue à dissolução e ao medo.
Quem pode ver a face iluminada de Deus sem se esfarelar feito pão velho?
L diz que me ama.
- Vem comigo... Até o Maravilhoso! – convida. – Estaremos juntos em Deus, seremos o orgasmo em Deus. Seremos feito o fidalgo Raimon Lull, espanhol do século XVIII, que conseguiu marcar um encontro secreto com a dama que admirava depois de uma verdadeira caçada por toda a corte. Mas, para a surpresa do fidalgo, na ocasião do encontro, ela, a dama, abriu silenciosamente o vestido e mostrou-lhe o seio, roído pelo câncer. Daí por diante, Lull tornou-se teólogo e dedicou o resto de sua vida a Deus. Vem comigo! Através do choque, dos ratos, do câncer e da morte e estaremos juntos no coração deste Deus que fisgou Raimon Lull. Vem?
Vou com ela até à beira do abismo, mas cravo o mastro da minha bandeira na razão e me despeço.
- Não era para isso... Em nome disso... Que você rezava, quando menino, nas missas de domingo? – E então solta minha mão, sorrindo, antes de ser tragada pela chama vermelha do cigarro.
Em outros tempos:
Espanha-Alemanha-Igreja-Fruta-Festa-Frio-Água-Rio-Floresta-Vestido-Chapéu-de-Palha-Auto-de-Fé.
- Até o Maravilhoso!
Despeço-me e, pela primeira vez nos últimos vinte anos, penso em suicídio.






terça-feira, 6 de junho de 2017

LISA: UMA GORDINHA MUITO ESPECIAL

Aqui em casa, tratamos todos de modo igual, para não haver ciúme. Então, como ontem falei do Fumaça, hoje quero falar da Lisa, nossa gatinha intelectual. Se fosse gente, estaria lendo Proust aos 15 anos. Depois, semana que vem, abordo a Nicole - fui informado de que é assim que se escreve - e a Wendy.
                Peguei a Lisa depois que outra gata linda que tínhamos, a Clarice, desapareceu. Meu filho João, 10, e eu rodamos o bairro inteiro, procurando, perguntando, colando cartazes e... Nada. O João ficou triste - é um funkeiro muito sensível. Nessa época, já tínhamos a Nicole. Então, numa noite, antes do trabalho, passei no pet shop pra comprar ração e areia. Numa gaiola, do lado de fora, havia três gatinhos. Um frio danado. Garoando. Olhei, dois dos bichos brincavam, a terceira estava quieta, no canto, magérrima. Pensei: “é ela.”
                - Escuta aí, meu irmão, esses gatos são pra doação?
                - São.
                - Queria aquela magrelinha ali.
              - Putz, cara, ainda bem que você escolheu ela, estava com medo que morresse de fome, as outras gatas, são todas fêmeas, tomam a comida dela, não deixam ela comer nunca. Se continuasse aqui ia morrer logo, logo.
            Levei Lisa. A Nicole sempre foi conversadeira, não tanto quanto o Fumaça, mas miava bastante. Já a Lisa, não mia quase nunca. Quando chega alguém, ela se esconde atrás do sofá, ou do armário. Só sai quando a visita vai embora. E, se antes não conseguia comer, agora está obesa. Gosta de Pachelbel. É só colocar Canon in D, que ela vem, silenciosa, e olha a gente nos olhos. Tipo assim: “Te amo, mas será que posso confiar mesmo?” Se está deitada perto da gente e outro bicho chega, ela sai e se esconde; mas, quando a gente acaricia a cabeça dela, ela vira e tenta lamber a mão, para retribuir o carinho. Deve ter sido abandonada muito cedo, porque até hoje, quando deita perto da gente, repete os movimentos como se estivesse mamando. Como lê muito, acho que, em breve, precisaremos fazer uns óculos pra ela, pelo menos pra descanso. Vai ficar charmosa. Uma gatinha rajada, bem gordinha, usando óculos pretos de aro redondo.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

O gato preto aqui de casa

                Temos quatro gatos. Três meninas: Wendy, Nicolly e Lisa; e um menino: o Fumaça. Com as meninas nunca tivemos problemas, são umas ladys. Só fazem suas necessidades na caixa de areia. Comem apenas ração, em horários regulares. Limpam-se duas ou três vezes por dia. Quando a caixa de areia fica suja, miam ao lado até que troquemos a areia e só então fazem a toilet. Andam pela casa de modo delicado, como se usassem salto alto em cada uma das patinhas. Mas, como disse, temos um machinho: o Fumaça. Ele é o mais novo, deve ter uns quatro meses, mas já deu mais trabalho que as outras três juntas. Fumaça faz xixi em tudo quanto é canto. Não respeita sofá, cama, livro, roupa. Outro dia, defecou em cima da pia da cozinha. Basta deixar a tampa da privada aberta que ele enche a pança de água suja. Outro dia, estava atrasado para um compromisso, larguei a roupa na cama e tomei um banho de três minutos. Vesti a roupa rápido e saí. Só no carro foi que percebi o odor característico: Fumaça tinha mijado nas minhas calças. Não dava tempo de voltar. De modo que, neste exato momento, pensei no conto do Poe, vocês sabem.
                Quando o Fumaça chegou aqui em casa, as gatas perderam a paz. A Nicolly, mais velha, não pode vê-lo se aproximar que bufa. Às vezes ela se deita na passadeira ao lado da pia da cozinha. Sem fazer barulho, ele sobe na pia e despenca sobre ela lá de cima, miando: - MADEIRA! E aí sai correndo com medo de apanhar. A Lisa, do meio, bem gordinha, qualquer dia escrevo sobre ela, só se afasta, sem dizer nada; ela é tímida, sofreu bullying no pet shop, ainda mama, esfregando as patinhas na minha camisa, quando estou deitado. A única que dá bola pro Fumaça é a Wendy. Ela, branquinha, branquinha; ele, pretinho, pretinho. Os dois brincam, limpam-se mutuamente, fazem carinho. Às vezes dormem abraçados, que nem gente. Ele mentindo pra ela: – Não sou um gato, sou um pantero, vim das savanas africanas, já enfrentei todo tipo de animais selvagens. - Ela sabe que é xaveco dele, mas finge que acredita.
                Dias atrás, estava deitado na sala ouvindo música - É impressionante como os gatos gostam de música. Cada uma/um, tem gosto diferente. Nicolly gosta de pop anos 80; Lisa, música clássica; Wendy é fã de Amy Winehouse e o Fumaça não tem paciência pra nada, só quando meu filho põe um funk proibidão é que ele se anima.  – Sim, voltando, estava ouvindo música, deitado no sofá da sala. Ele chegou, todo bonzinho, o motor ligado; apesar de ser o menor, é o que ronrona mais alto; deitou no meu peito, baixou a cabecinha e ficou quietinho.
                - Ué, que foi? Entrou em depressão? – Perguntei. Não respondeu. Fiquei fazendo carinho até sentir o calor. O endiabrado estava mijando em cima de mim, por isso o jeitinho manso, a delicadeza. Fumaça quando está quieto, está aprontando.
                Tempos atrás, Fumaça pegou um fungo e passou pra toda a família. Gastei uma nota, mas agora estamos todos bem. Nesse dia, contamos a respeito do comportamento dele à veterinária. Ela foi enfática:
                - Só melhora castrando.

          Então marcamos e, daqui a pouco, às onze, levo o Fumaça para a castração, mas com o coração partido em mil pedaços. Sei que quando voltar, ele já não será o mesmo. Desculpe, menino.

Um aleijado muito do filho da puta

Pode perguntar pra qualquer um: sem beber sou um gentleman; mas, bebeu,  fodeu. Não que eu fique violento nem nada, só que quero ser o centro das atenções. Já viram criança dançando na própria festa de aniversário? Então, sou eu quando bebo. Sem contar a aceleração mental. Bato recordes de velocidade: é uma piada, uma mentira, por segundo. Pode perguntar pra qualquer um: fica pequeno pra esses humoristas cu-de-frango que empinam pipa no ventilador.
            Quando chegamos no bar - meu primo Nena, meu primo Dudu e eu - estávamos todos sóbrios. Silenciosos feito freiras no convento. Como estava com uma moeda, comprei meia dúzia de espetinhos e pedi que o dono do bar tirasse dos espetos e colocasse num prato com farofa. Em seguida, ofereci de mesa em mesa, de bêbado em bêbado, na maior educação.
            - Pô, que gentileza – disse um motoqueiro, mas o deficiente físico que estava ao lado dele, com as muletas encostadas à mesa, emendou:
            - Enfia no cu, branquelo.
            Não enfiei o churrasco no cu. Cada espetinho custava quatro reais, de modo que era muito dinheiro para desperdiçar assim.
            Tenho um coração bom. Pode perguntar pra qualquer um. Brigo, berro e bufo, mas não guardo mágoa, nem ressentimento... Então bola pra frente e cada aleijado com sua muleta. Pedimos cerveja... Cachacinha com Cambuci. A carne tava boa; a breja, gelada e a pinga bem temperada. Pedimos mais cerveja e mais pinga. E mais uma rodada... E outra. Aí comecei meu stand up. Uma graça engendrando outra. No meio do bar. Todo mundo ria. Mandaram descer cerveja de graça na nossa mesa... E eu lá, contando uma mentira atrás da outra. Metralhadora ligada e gatilho acionado. E aí o aleijado passou pra ir ao banheiro...
            - Cê é o bichão mesmo, hein doido? – disse e, sem mais nem menos, meteu uma das muletas na minha cabeça.
            Relevei de novo. Tenho coração bom, pode perguntar pra qualquer um. Continuei com o show...
            - Por que você não vai tomar no cu, hein, veado?! – era o aleijado outra vez, voltando do banheiro. Aí não aguentei. Ele me deu as costas pra pedir alguma coisa no balcão e eu enfiei o indicador, até o talo, no cu do aleijado. Quase arranquei uma casquinha de feijão. Ele pulou, as muletas caíram pros lados e o tempo fechou que nem nO morro dos ventos uivantes. A simpatia para com minha pessoa desapareceu no instante em que meu fura-bolo deixou de beijar o cu do aleijado.
            Meu primo Nena, ele é muito macho até hoje, tinha ido ao banheiro. Quando voltou, eu cochichei.
            - Vambora que o tempo fechou.
            - Que aconteceu?
            - Enfiei o dedo no cu daquele aleijado chato do caralho.
            - Nunca saí correndo de lugar nenhum e não é hoje que vou sair.
            É chato andar com gente corajosa. Por mim, teria saído que nem o Roberto Carlos: a trezentos por hora. Mas o Nena não arredou pé e estávamos todos no monzão 84 dele.
            Sacaram-se as peças. Cada ferro mais louco que o outro. O motoqueiro que tinha comido meu churrasco, puxou uma faca igual a do Rambo. E vai e vem, e vai e vem. Os caras gritando:
            - Vamo sentá o dedo nesse alemão do caralho.
            Empurra daqui, empurra de lá.
            O Nena desarmado, só nas ideias, apaziguou tudo. A coragem vale mais que mil berros. No final, pagamos uma cerveja para a turma do aleijado, eles pagaram uma pra gente também. Eu perdi a graça. Parecia criança quando toma cascudo. Quase pedi um doce. Não era digno de estar no meio dos homens. Fiquei triste. Tinha aprontado de novo. Cruzei as mãozinhas no meio das pernas e baixei a cabeça. Quando terminamos de beber, pagamos a conta e estávamos indo embora - tipo cangaceiro, ou caubói, sem dar as costas pro bar – só que, quando passei perto do aleijado, ele pôs a muleta na frente, trupiquei e caí de costas. Tudo bem, como diz o clássico do cancioneiro popular brasileiro composto por João Gilberto: é beber, cair e levantar.

            Na boa, por mais que queiramos um mundo cor de rosa, com as pessoas dando flores umas às outras, o amor crescendo junto ao trigo nos campos, digam aí: esse era ou não era um aleijado muito do filho da puta?

domingo, 4 de junho de 2017

SÍNDROME DE ROLANDO LERO: O CASO ANTONIO CANDIDO



- Seo Rolando Lero, o Sr. acompanha os cadernos de cultura dos jornais?
- Sim, como não?
- Seo Rolando Lero, de que morreu Antonio Candido?
- MMMOOOORRREEEUUU? Não posso crer, amado mestre! Estivemos juntos ainda mês passado, comendo uma bacalhoada. Candinho adorava um bom bacalhau assado com batatas e azeitonas da Ilha da madeira. Morreu Candinho, vai fazer falta. Tão triste ver morrer assim, de repente, um rapaz tão moço, praticamente recém-saído da adolescência.
- Seo Rolando Lero, Antonio Candido tinha quase cem anos.
- Sim, mas jovem em espírito.
- Seo Rolando Lero, que livro importante escreveu Antonio Candido?
- Amado mestre, lembro Candinho ainda jovem, bigodes pretos insuflados ao vento, com uma pilha de papéis ao sovaco. Imagine que aqueles eram os manuscritos de Casa Grande & Senzala. Ele corria atrás do Oswald, de Andrade, pelos bares da cidade, o qual reclamava: Ih! Lá vem o chato-boy...
- Seo Rolando Lero, Casa Grande & Senzala foi escrito por Gilberto Freyre. Antonio escreveu algo envolvendo sociologia e literatura.
- Sim, tem toda razão, como não? Um lapso, amado mestre, espero que entenda. Ele escrevia então Raízes do Brasil,sociologia, isso, costumava vê-lo rondando ali pelos arredores de Assis, na biblioteca da UNESP, cruzando o bosque, rabiscando e rabiscando e rabiscando papeis em branco, rasgando rascunhos.
- O Sr. está certo, em parte, Antonio Candido ajudou a fundar mesmo a UNESP em Assis, mas Antonio Candido escreveu Literatura e sociedade e não Raízes do Brasil que foi escrita por Sérgio Buarque de Holanda, pai do nosso querido Chico Buarque de Holanda.
- Sim, sim, sim... Serginho, pai de Chiquinho. Espero que entenda o novo lapso, mas e a nota?
- Porque acertou ao menos a biblioteca e uma universidade na qual o mestre realmente trabalhou, nota 2,0.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

QUANDO OS ANJOS FUMAM CRACK

Sou um cara muito suscetível, reconheço. E nunca sei distinguir fantasia e verdade, sonho e realidade. Por isso, espero que me ajudem a entender o que aconteceu ainda há pouco. Eu tinha acabado de deixar meu filho na escola e parei para tomar café e comer um pão na chapa, esses poucos luxos que ainda me permito. Pensava nos versos do Bob Marley: “good friends we have / oh good friends we've lost / along the way”, mas lia Drummond, sempre: “A injustiça não se resolve. / À sombra do mundo errado / murmuraste um protesto tímido. / Mas virão outros.” Na televisão, as mesmas notícias de sempre: corrupção, ganância, morte, violência... E meus filhos são tão pequenos! E há tantas crianças pelo mundo! A moça do caixa mudou de canal e foi aí, exatamente aí, que ela entrou: uma deusa em farrapos. Usava botas de salto alto, um casaco sujo, uma echarpe rosa choque. Havia ali uma preocupação estética, apesar. Entregou uma flor a uma enfermeira sonolenta que também tomava seu café. Cumprimentou o balconista e aí me viu. Pensei: lá vem! Só quero ficar quieto no meu canto... E, lá vem! Sentou-se numa cadeira vazia à minha frente e foi então que seu rosto apareceu: dentes amarelados, pele morena e olhos verdes, mas tão verdes que lembraram a esperança e os grilos que a simbolizam.
- Não fique triste, moço, você tem uns olhos de quem está sempre triste, mesmo quando faz os outros darem risada. – Tocou meu braço e senti a corrente elétrica. - O mundo é pesado, mas Deus sabe de todas as coisas.
Solucei. Engoli o choro. As preocupações e dores se foram como num passe de mágica, como num milagre, como se já tivesse tomado meu diazepan 5 mg.
- Posso pedir um pão?
- Claro.
Pediu pão seco. Não quis margarina, nem nada. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, desapareceu. Tomo café, nesta mesma padaria, todos os dias e nunca a vi por ali, nunca.
- Uma moça tão bonita, tão boa, mas fuma crack – disse o copa, piscando o olho.
Apesar do alívio que o toque da moça me causara, fiquei pensando: o que acontece com o mundo quando os anjos fumam crack?


quinta-feira, 1 de junho de 2017

A MALDADE JÁ VIMOS DEMAIS

1.    Sympathy for the devil

Não me interessa ser um idiota da objetividade. Quando leio Fogo Morto, estou no sertão, ressentido, batendo sola, e sou Mestre José Amaro; ou continuo no sertão, sendo atormentado pelos moleques: papa-figo papa-figo! E sou Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. A literatura é algo muito sério, ou a engolimos e ela se torna parte de nós, ou é nada. Desde os dezesseis anos, tanto para o bem, quanto para o mal, sou Heathcliff: sei ser estoico e aguentar pancada, sei o que é o amor e a humilhação. Estou também atrás da porta quando Cathy diz: “se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos uns pobretões. Enquanto se eu me casar com Linton, poderei ajudar Heathcliff...” [1]. Sou eu quem conversa com Nelly:
- Nelly, mesmo que eu o derrubasse vinte vezes, isso não o tornaria menos bonito nem a mim menos feio. Como eu queria ter cabelo louro e pele clara, vestir-me e comportar-me bem e ter uma chance de vir a ser tão rico quanto ele!
[...]
Você deve aprender a desfazer essas rugas, a erguer abertamente essas pálpebras e transformar os demônios em anjos confiantes e inocentes [...] Não assuma a expressão de um cão danado, que só espera do mundo pontapés, embora odeie o mundo e os pontapés pelo que eles lhe fazem sofrer."[2]

Como diz Raul Seixas, em Segredo da luz: o ódio não é o real, é a ausência do amor. E, embora Eu-Heathcliff tenha encontrado algum amor pela acolhida do Sr. Earnshaw, o velho veio a falecer cedo, deixando-me só nas mãos de Hindley. E, embora tenha amado Catherine, embora tenha sido Catherine, fui traído - todo amor tem seu calcanhar de Aquiles - na noite em que ela foi mordida no pé pelo cão dos Linton e, quando voltou, cinco semanas depois, já era outra. Tinha esquecido a natureza, nossos campos em Yorkshire. Ela, Catherine, tinha sido domesticada pela cultura, enquanto eu, como um cão, encolhia-me sujo e descabelado, selvagem, natureza, num canto da casa. E ela riu, ó como riu! Se o ódio não é o real, é a ausência do amor, então sou essa ausência – menino achado sem idioma, sem pai, sem mãe. E, no entanto, como doeu... Como me culpei, como me arrependi, na noite em que o intrometido Sr. Lockwood viu teu fantasma, Cathy, e nada pude fazer além de perder o controle e mergulhar no desespero. E ainda dizem por aí que não tenho coração: - Entre! Entre! solucei “- Cathy, entre. Oh venha... venha... uma vez mais! Oh, minha adorada! Escute-me agora, Catherine, finalmente!”[3] – E... Nada. Só silêncio e brancura!
Sempre acreditei que o dentro é fora e o fora é dentro. Subjetivo e objetivo são invenções metafísicas, apenas. Como o Sr. Lockwood diz no primeiro capítulo do romance: “A propriedade do Sr. Heathcliff chama-se, adequadamente, Wuthering Heights, sendo wuthering um significativo adjetivo provinciano para designar o tumulto atmosférico ao qual ela está sujeita em tempo tempestuoso.”[4] Neste monodiálogo que estabeleço. Quero dizer o que aprendi sobre o abandono e a vingança. Quero fazer diferente desta vez.



2   2. Tornar-se vingança
            
A primeira questão que quero colocar é: qual é o assunto do livro O morro dos ventos uivantes? Trata-se da mais poderosa história de amor já escrita no Ocidente? É um tratado sobre a vingança? Pode ser lido como um estudo das diferenças entre as classes sociais? O assunto é o mal, como percebeu Bataille? Acredito que o livro pode ser cada uma destas coisas, ou todas elas ao mesmo tempo. Cada narrativa fala de um modo distinto para diferentes leitores. Aqui pretendo tratar apenas da vingança, embora, para tanto, tenha de recorrer a acordes incidentais como, por exemplo, a ânsia de reconhecimento – justificada - por parte de Heathcliff.
No enredo de O morro dos ventos uivantes, o que impede a união entre Cathy e o herói cigano, muito mais que a questão entre natureza e cultura[5], é o abismo social que, no fundo, separam os dois irmãos-amantes. Na noite em que Heathcliff vai embora, ele ouve Cathy dizer a Nelly:

- Separação! Abandono! – exclamou ela, com um acento de indignação. – Quem nos vai separar, diga? Quem ousará? Enquanto eu viver, ninguém, Ellen! Todos os Liton deste mundo poderão morrer, antes que eu consinta em esquecer Heathcliff! Não é isso o que eu pretendo...  não é isso o que eu quero dizer! Jamais me casaria com Linton, se um tal preço me fosse exigido! Heathcliff será para mim o que sempre foi, toda a minha vida. Edgar terá de colocar de lado a antipatia que lhe tem e tolerá-lo, ao menos. Ele o fará, quando perceber o que eu sinto por ele. Nelly, vejo que você me considera uma terrível egoísta: mas nunca lhe passou pela cabeça que, se eu e Heathcliff nos casássemos, seríamos uns pobretões? Enquanto se eu me casar com Linton, poderei ajudar Heathcliff a subir e coloca-lo fora do domínio do meu irmão.[6]

Palavras duras de se ouvir, principalmente para um caráter orgulhoso como o do nosso herói. Heathcliff já se ressentia por sua orfandade, sua origem cigana. Queria ser reconhecido como um igual, um Earnshaw; mas, ao ouvir tais palavras, algo deve ter se quebrado dentro dele. A inocência morrera de vez. Nesta noite, ele partirá por três anos e, quando voltar, há de exigir duas coisas: reconhecimento e vingança. Sua ira não encontrará limites.
Segundo Peter Sloterdijk, as energias ligadas à ira, para os gregos thymós, são aceitas tanto por Platão, quanto por Aristóteles. Para o primeiro, a ira encontraria lugar na cidade dos filósofos, “uma vez que a polis governada racionalmente também precisa de militares que figuram aqui como a classe dos “guardiões”.”[7] Para o segundo, a ira legítima teria ouvidos à razão, seria apropriada para combater as injustiças, mas apenas como aliada, tendo a razão por carro-chefe. O problema com o protagonista de O morro dos ventos uivantes é que a ira se torna o comandante do navio que tem por destino apenas a gana de reconhecimento e a vingança. Tudo o mais será secundário, acessório. 
Heathcliff é um homem selvagem, orgulhoso, duro; mas, no livro, encontramos poucos casos de violência física. Sua violência e força são sempre tratadas de maneira espiritual. O que ele almeja é estar à altura. Como mostramos num dos fragmentos anteriores, ele confessa a Nelly que, mesmo derrubando Linton vinte vezes, por ser mais forte e enérgico, ainda assim “isso não o tornaria [Linton] menos bonito nem a mim menos feio. Como eu queria ter cabelo louro e pele clara, vestir-me e comportar-me bem e ter uma chance de vir a ser tão rico quanto ele!”[8] A thymós grega tratada de modo civil transforma-se em ânsia por reconhecimento. Ainda conforme Sloterdijk (2012, p. 38 ):

Uma vez que thymós condicionado de maneira civil é a sede psicológica da aspiração ao reconhecimento apresentada por Hegel, torna-se compreensível porque o reconhecimento não concedido por outros homens relevantes causa ira. Quem exige reconhecimento de um outro determinado submete este outro a um teste moral. Se o interpelado se recusa a passar por essa prova, precisa se confrontar com a ira daquele que apresenta a exigência, já que este se sente desconsiderado. A exaltação irada acontece inicialmente quando o reconhecimento do outro me é subtraído (algo em razão do que surge a ira voltada para fora). No entanto, ela também se dá quando nego reconhecimento a mim mesmo sob a luz de minhas ideias de valor.

O fragmento parece ser escrito sobre o próprio Heathcliff. A ânsia pelo reconhecimento de outros homens, os Linton, o próprio Hindley Earnshaw, a dor de ser preterido por pena... Tudo isso desperta a ira. O menino cigano exige ser reconhecido como um igual, mas quando os interpelados se recusam a passar por essa prova, precisarão se confrontar com a ira daquele que apresentou a exigência. “Em ofensas que adoecem, a vingança é certamente a melhor terapia”[9]. Daí para a frente, Heathcliff já não será um ser humano, mas um destino, UMA VINGANÇA. Mesmo que essa vingança represente sua própria ruína. Por três anos ele desaparecerá. Quando voltar, será um cavalheiro abastado, mas cada dia mais avarento. Fugirá, para desposar, sem o menor traço de amor, Isabela, a irmã de Edgar Linton e com ela terá um filho. Lançará mão sobre todos os bens de Hindley, então um beberrão e jogador compulsivo. Quando a primeira Cathy morrer, logo depois de dar à luz a outra Cathy, sua filha, a ira de Heathcliff crescerá em proporções descomunais. Ele casará seu filho e a prima, Cathy, filha de Edgar Linton e a Catherine-mãe. No fim das contas, Heathcliff herdará tanto o morro dos ventos uivantes, quanto a residência que pertencia aos Linton. Pensando ter realizado por completo sua vingança, Heathcliff perceberá, entretanto, nos últimos descendentes das famílias Linton e Earnshaw o olhar de seus antepassados e se lembrará do amor entre ele e Cathy. Com sua vingança completa – o ódio não é o real é a ausência de amor - Heathcliff morrerá louco e só. Como último desejo, será enterrado junto ao seu grande amor, Catherine. Daí por diante, muitos jurarão ver sempre um casal vagando pelas charnecas do morro.

3   3. Heathcliff e eu: a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena[10]


Corria o último ano da década de 1980. Dormíamos, meu irmão mais velho e eu, no mesmo beliche, eu embaixo, ele em cima. Ele era três anos mais velho que eu. Hoje isso não é muito; mas, quando um tem dez e outro treze anos; um já é homem e o outro, menino. Durante a noite, costumávamos conversar antes de o sono chegar. Tínhamos um rádio relógio com os números vermelhos digitais que colocávamos para despertar às seis e vinte da manhã, bem a tempo de nos aprontarmos para a escola. Antes de dormirmos, entretanto, deixávamos o rádio ligado, sintonizado na estação Antena 1 FM, que só tocava músicas calmas, clássicos românticos na maioria das vezes. Desde pequeno, nunca soube o que fazer das minhas emoções. Toda vez que tocava uma música estranha, meio fantasmagórica, cantada por uma mulher de voz aguda, eu chorava[11]. Não conseguia me segurar. Na parte de cima do beliche, meu irmão perguntava:
- O que é que tu tem, Dan?
- Nada não – respondia. Meninos não choram. Que havia de errado comigo? Será que era um mariquinha?
Não, estava era apaixonado. Não pela professora, nem pela namorada do meu tio. Embora também tenha me apaixonado por elas por um curto período. Eu me apaixonava muito fácil naquela época. Meu coração é um balde despejado. Eu amava R., 16 anos, irmã mais velha do meu melhor amigo W. que, naquela época, tinha onze. Ela era mais que linda! A descrição de Catherine Earnshaw cairia como uma luva. Todos os dias, quando chegava da escola, lavava a louça, varria a casa, nossos pais trabalhavam fora, e partia para a casa de R. e W.. Lá, passava o resto da tarde, jogando conversa fora, ouvindo música, brincando com a cachorra deles. W. tinha outras quatro irmãs mais velhas; todas elas gostavam de mim. Abraçavam-me, cheiravam-me, encostavam os seios no meu corpo pré-adolescente. Diziam que eu era igualzinho ao irmão delas. Como eu era um ano mais novo que ele, era considerado o caçula da família. Já disse, todas eram lindas e gostavam de mim, como menino e não como homem. Também, eu era menino mesmo, não tinha um pentelho sequer no saco. De minha parte, só amava R.. Cada dia mais, mais, mais, mais, mais, mais, ad infinitum... E, durante a noite, a programação se repetia na rádio e eu ouvia aquela canção que me criava bolhas na alma. 
Um dia, tomei coragem e confessei a W. tudo o que sentia por sua irmã. Pensei que ele fosse ficar bravo... Considerar uma traição... Uma pilantragem... Mas, que nada, ele ficou foi feliz. Bolamos juntos um plano para eu me declarar a R.. Seria naquela tarde mesmo. Dois malucos. Ela estava passando roupa na sala, o rádio ligado:
- R., o Dan tem uma coisa pra te dizer.
Ela sorriu, as sobrancelhas levantadas.
- Pois diga.
Tentei dizer algo do que sentia, aquilo cujo nome desconhecia por completo, mas cadê voz? Por três ou quatro vezes abri a boca, mas nada saía. Já estava até gostando daquela sensação: o coração disparado, sensação que mais tarde encontraria na cocaína, quando consegui dizer:
- Eu gosto de você.
Ela riu, largou o ferro de passar e me abraçou. Senti a humilhação no mesmo momento. 
- Também gosto de você, mas é como um irmãozinho.
Fui embora chorando. W. atrás gritando meu nome e advertindo a irmã:
- Tá vendo o que você fez, tá vendo o que você fez!
Dias mais tarde, sentado com outros meninos nos degraus da Igreja da vila, batendo papo antes de a noite cair e termos de entrar para casa, vi R. passando na garupa de uma motocicleta vermelha. 
Passaram-se sete anos. W. e eu continuamos amigos, mas nunca mais entrei na casa deles. Eu virei gótico, comecei a ouvir bandas como The Cure, The Smiths, Bauhaus, Sisters of Mercy, Ultravox, Cocteau Twins e li, reli, tresli, o livro que acompanharia pelo resto da vida: O morro dos ventos uivantes.
Num sábado à noite, W. eu e mais um pessoal combinamos de ir à cachoeira, no dia seguinte. Eu iria na garupa do meu amigo W., afinal ele tinha comprado uma moto e eu era menor de idade. Nesta noite, bebi demais e, dia seguinte, não consegui acordar. Eram seis horas da tarde, mais ou menos, domingo, quando chegou a notícia:
W. estava morto.
Ele era um menino bonito, os mesmos olhos da irmã. Lá na cachoeira, umas meninas deram em cima dele. Os rapazes que estavam com elas não gostaram. Discutiram. Ele montou na moto e tentou ir embora, mas antes de partir, levou um tiro na nuca. Eu devia estar lá, na garupa, e receber aquele tiro, mas escapara graças à bebida. Depois dizem que bebida só traz desgraça.
Dia seguinte, no velório, R. veio chorando me abraçar. Eu tinha lido O morro dos ventos uivantes. Dei dois passos para trás e ofereci apenas minha mão. Eu-Heathcliff. Ela apertou minha mão e foi chorar abraçada às irmãs. Agora eu não chorava mais. Fiquei sim, com a moto de W.. O pai dele não suportava olhar para ela. Esta moto, entretanto, jamais funcionou.
Como no romance, muitos anos mais se passaram, feito sopro. Casei, estudei, trabalhei, li, ouvi, escrevi. Um dia, estava trabalhando pela primeira vez como mesário nas eleições e quem aparece para votar justo na minha sessão?
Isso mesmo: R.
Tinha agora mais de quarenta anos, era mãe, mas continuava bonita. Entregou o título de eleitor nas minhas mãos e sorriu, sem saber muito bem como se comportar. Sem saber se quem estava do outro lado era o menino que brincava de ser seu irmão mais novo, ou o jovem duro, misto de Daniel e Heathcliff. Peguei o documento da mão dela, sorri, abri os braços e ofereci meu abraço. Ela aceitou. Eu não queria terminar mal como o menino cigano do livro. Os olhos estalados, como que cheios de cocaína. A vida é breve e eu sinto sempre tanta dor; talvez por isto nunca tenha conseguido deixar de beber de fato. A maldade, irmãos e irmãs, já vimos demais. O abraço tem mais poder que a vingança.


Dados bibliográficos

BRONTË, Emily. O morro dos ventos uivantes. Trad. Vera Pedroso. São Paulo: Companhia Editora brasileira, 1971.
BRONTË, Emily. Wuthering Heights. London: HarperCollins Publishers, 2010.
SLOTERDIJK, Peter. Ira e tempo: ensaio político-psicológico. Trad. Marco Casanova. São Paulo: Estação liberdade, 2012.



[1] BRONTË, 1971, p. 99
[2] Idem, Ibidem, p. 73
[3] Idem, Ibidem, p. 44
[4] Idem, Ibidem, p. 20
[5] Embora ambos no início do romance fossem crianças selvagens, o rompimento se dá quando Cathy volta “civilizada” da residência dos Linton e Heathcliff se encontra ainda mais selvagem.
[6] Idem, Ibidem, p. 99
[7] SLOTERDIJK, 2012, p. 37
[8] BRONTË, 1971, p. 73
[9] SLOTERDIJK, 2012, p. 73
[10] Frase proferida pelo Sr. Madruga, personagem de Ramón Valdés na série Chaves.
[11] Na época eu não sabia, mas depois descobri que se tratava de Kate Bush cantando Wuthering Heights.