terça-feira, 5 de dezembro de 2017

COMO UM MENINO FRENTE A DEUS

O TOURO EM ERUPÇÃO

Um touro vendado se bate contra as extremidades do túnel, tentando encontrar o caminho que leva à arena. É um touro preto. Ao redor, os homens fustigam-no, batem-lhe com a mão no traseiro. “Eia, novilho doido, eia!” Viver é encontrar uma trilha, mesmo que de pedras, por onde a gente possa caminhar. Algumas pessoas encontram sua própria trilha, aquela que lhes é - e só a elas - destinada, quando mal aprenderam a andar, quando ainda engatinham; outras pessoas passam a vida toda batendo a cabeça, procurando uma vereda onde possam ser, onde seus pés encontrem o sentido de existir. “Dê-me um cantinho de mundo onde eu caiba e eu serei serenidade” – diz o touro por meio de sua alma taurina. Acossado, no entanto, o touro é abismal, fere quem estiver por perto; não distingue sequer a mão que o alimenta. Eia, novilho, eia natureza, eia! Há uma menina branca, sempre há. A fragilidade é sua força. Ela acaricia o touro enquanto os outros cravam bandeirolas nas costas da fera. Três filhos, três filhas; o pai cego fumando cachimbo. Caminho onde a gente possa ser. Uma beiradinha de mundo e de língua onde caiba um touro, onde um touro encontre morada e frescor. A carne é para os vergões e o chicote. A carne é para a fúria! Alimento, amizade, alma, amor, amanhã. Todas as pistas começam com A, mas a solidão é cheia de curvas... E gritos. Havia para a menina toda uma vida de vitórias: quadros revolucionários em estado de transparência, esculturas inovadoras - sempre de touros - ocultas na pedra e no bronze; vocação para a Arte é isso, mas ela se esqueceu de nascer e a neblina cobriu o caminho que lhe era destinado. O outro do mundo habita o silêncio... O caminho não existe sem aquele que caminha e o touro é toda a violência que o couro e a carne podem conter. A vida habita a solidez; o mais é hipótese, possibilidade, cavalos marinhos no sertão; todo um mundo que poderia ser, mas não é: aborto... A casa abortada.
                MAS VOU CONTAR ESTA HISTÓRIA PARA PROVAR QUE SOU SUBLIME.
                A menina diz:
                - Quando eu me despir de todas as cascas serei amor.
                O touro não é só o touro, o touro é o touro mais a menina e mais a casa. Nada é isolado. Tudo o que é, é dentro de um mundo. Tudo o que é mundifica. Eva era Eva, mais a maçã, mais a serpente.
                O touro escapa, o touro entra em erupção. O touro – negro - contempla a casa. O touro é a casa. A menina morta monta nua o touro: uma maçã, uma rosa vermelha nos cabelos; gozo... E morangos silvestres. O touro amanhece um menino. Ele se chama Kan, é o filho do meio; ela se chama Tui é a filha mais nova.

O OUTRO EM ERUPÇÃO

Era uma casa grande: oito portas e uma dúzia de janelas. Era uma casa antiga, para mais de duzentos anos, sustentada por colunas e vigas de madeira maciça lá do século XVIII ou XIX. A casa atravessa o tempo com a família dentro. No porão, encravadas nas pedras, ainda estavam as grossas correntes para prender escravo. Dizem que o bisavô era severo com negro fujão; gostava de aplicar os castigos nas dependências da casa e a casa se fortalecia com isso, ganhava sua alma, seu poder também daí. Não é só com sorrisos e fotografias que se constrói uma família. Aquilo que dói, aquilo que esfola, é transmitido entre as gerações; torna-se a memória de um clã. Ancestralidade é um dos nomes do carma. Havia, na casa, uma sala com doze cadeiras espalhadas, encostadas às paredes; sobre cada uma dessas cadeiras vazias, o retrato amarelado de um parente morto. Ancestralidade também é carma. Havia ainda outra sala, com uma mesa longa, rústica, de madeira preta. Os quartos eram quatro. No menor deles dormiam o pai e a mãe. Os três rapazes, cujas idades variavam entre vinte e um e quinze anos, dormiam no mesmo quarto. As meninas, também eram três, dividiam o outro quarto. Havia ainda um quarto de hóspedes que estava sempre desocupado; uma vez que, havia muitos anos, ninguém visitava a casa. Uma cozinha enorme onde, desde manhã cedo, o fogo crepitava completava a casa.
                Em tempos remotos, mais de duzentas pessoas trabalhavam na fazenda, subindo e descendo os morros, cuidando do cafezal. Agora os pés de café tinham desaparecido dos morros. Quando setembro chegava, o cheiro de café perfumava o ar, mas a plantação estava perdida no meio da mata. A casa, a família e o touro estavam apartados do mundo. Assim que o dia amanhecia, o pai, mesmo sem enxergar, chamava os rapazes e seguiam juntos para a roça. Plantavam o que sustentava a existência. Não havia luxo. Aos domingos, o pai e a menina mais nova, Tui, iam à feira vender o excedente, quando excedente havia. Em determinadas épocas do ano a comida precisava ser racionada, quase passavam necessidade, mas havia a farinha de mandioca, a rapadura, o fubá.
                Uma noite, o filho do meio dormiu e sonhou com um abismo, estava calor, mas ele tremia e batia os dentes como se estivesse com febre. O sagrado vem em forma de frio. De dentro do abismo, saía uma luz proveniente de um tesouro: um touro em tamanho natural todo feito de ouro. No sonho, Kan viu com riqueza de detalhes o lugar onde o tesouro estava enterrado. Já tinha passado por aquele lugar. Ficava a três ou quatro dias de viagem rumo ao sul. O pai, porque era cego, intuiu o sonho do filho. Ele, o pai, tinha ciência de tudo; sempre. O frio era uma corrente que ligava ao filho o pai.
                Chamou o filho do meio e a filha mais nova, sua menina preferida.
                - Soube que vocês vão em busca do tesouro.
                - Ainda não é certo.
                - O tesouro só pode ser encontrado na noite de sexta-feira da paixão. E só pode ser manuseado por alguém puro de coração. Se aquele que tocar o tesouro tiver um único pensamento egoísta, um único pensamento impuro neste momento sublime, será dissolvido imediatamente. O tesouro está desde sempre no mesmo lugar, mas só poderá ser encontrado na noite da agonia de nosso senhor. Nessa noite ele emitirá aquela mesma luz que você viu em seu sonho.
                - Mas, pai, foi só um sonho. Não sei se isso tem algum valor...
                - Lembre-se: aquele que quiser reter, perderá; mas quem partilhar terá tudo em dobro. É preciso ser maleável, meu filho, as árvores mais altas envergam-se, mas não se quebram com o vento. Se o mundo ao seu redor desmoronar, mantenha-se na vala.
                Em seguida o pai tirou suas vestes e entregou-as ao filho que, imediatamente, despiu-se e vestiu a túnica do pai e colocou na cabeça o chapéu do pai.

ONDE ESTÁ O TEU TESOURO AÍ ESTARÁ TAMBÉM TEU CORAÇÃO

Kan tinha a capacidade de amar em silêncio. Tinha medo de ferir tocando, porque conhecia em si o touro. Tui sabia o amor do irmão, mas era toda pureza, como um riacho raso de águas cristalinas, peixes coloridas no fundo e pedras arredondadas. Tui não sabia tramar, era toda generosidade. Ela morreria de sede para dar água a alguém que também estivesse sedento. Kan sabia a generosidade, mas era homem, também água, mas abismal e o abismo tanto podia engoli-lo, quanto engolir tudo ao seu redor. Tudo é um: Kan era Kan mais Tui, mais seus outros irmãos, mais seus pais, sua cidade e mais toda a raça humana. O significado da vida é o caminho e o tesouro, mas cada pessoa só tem uma trilha que leva ao seu tesouro. É fácil demais se perder pelo caminho, cometer suicídio, desencaminhar-se.
                A viagem que demoraria três dias, acabou demorando mais de uma semana. Seguiram o rio, mas choveu muito por aqueles dias e o rio encheu, arrastando tudo às suas margens. Um tronco levado pelas águas acertou Tui ao meio, quase a levou embora, quase partiu a menina em uma, mas o irmão, abismal, conseguiu segurá-la e salvou-a e cuidou dela com os medicamentos que a mata oferecia. Ficaram dois dias descansando na casa de uma velha, negra, que morava só no meio da mata. Por sorte, chegaram ao ponto exato onde Kan havia sonhado, o tesouro estaria bem ali e era a tarde da sexta-feira santa. Cavaram, mas nada havia. Um buraco é cheio de silêncio. Cavaram em outros lugares. O tesouro salvaria a fazenda, a vida e a família.  Era impossível, a terra era terra e só. Já cansados do esforço, o irmãos adormeceram abraçados e desiludidos. Tudo seria ruína e só ruína. Alguns encontram o tesouro que lhes é destinado e outros não. A vida é isso. Que é justiça universal? O que é Deus? Durante a noite, a visão de um moço muito branco acordou Tui. Ele vinha com mais dois outros homens; todos eles profetas. Ele apontou uma cova que os próprios irmãos já tinham cavado. A cova emitia luzes azuis e vermelhas em forma circular. Ela, Tui, olhou para o irmão e viu que no peito dele havia também um círculo vermelho e azul - carne e espírito - feito da mesma energia que provinha da cova onde o tesouro, o touro todo feito de ouro, descansava. Tui acordou o irmão. Sabia que seu coração era feito de um pedaço do tesouro e que só ele podia retirar o tesouro; um touro todo feito de ouro em tamanho natural pesa muitas toneladas.
                - Veja – ela disse e apontou a luz.
                Kan olhou para o próprio peito e viu que brilhava. Sentiu-se forte e confiante, mas não compreendeu que para assenhorar-se do tesouro, primeiro era preciso assenhorar-se de si mesmo. O grande tesouro não está fora, é só consequência.
                Kan começou a puxar o touro de ouro para fora do abismo, mas o touro em erupção fascinou-o - as igrejas medievais têm gárgulas guardando a entrada – e um pensamento atravessou o coração semi-puro do irmão do meio. Quem pode lutar contra um pensamento? Seriam necessários muitos anos de meditação e treinamento para que Kan pudesse evitar a erupção de um pensamento assim, mas ele não tinha mais que alguns segundos:
                - E se eu ficasse com o tesouro? – Sussurrou. - Tenho direito; afinal, foi eu quem o encontrou. O sonho foi todo meu e só meu – era o Mal, as gárgulas que impediam a entrada no paraíso.
                Neste exato momento, com as mãos ainda nos chifres do metal, Kan, o filho do meio, o menino da água e do abismo, tornou-se poeira. Tui entristeceu-se. Chorou, mas ainda com lágrimas nos olhos tentou puxar o tesouro do buraco. Para sua surpresa, o touro de ouro pesava menos que a mão de uma criança. Ela o carregou de volta à fazenda com uma facilidade que surpreenderia ao mais forte dos homens.
                Em casa, partiu o touro em touros menores, todos de ouro e o dividiu com os irmãos, com o pai, com a mãe, com todos os moradores do vilarejo que espalharam pelo mundo seus pequenos touros dourados. Kan, o irmão que errou, já não existia com limites definidos, mas se manifestava em cada gesto da irmã, que todas as pessoas daquele lugar diziam ser uma santa e ela, de fato, era uma santa... Uma santa que primeiro se chamou Tui, depois Joana, depois Geralda, depois Márcia, depois Maria, depois Tatiane. Depois, Oração, simplesmente, como um menino frente a Deus.




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SOBRE A CAIXA DE FERRAMENTAS

Ouvi dizer que certos monges no Himalaia atravessam semanas e semanas para construir a mais bela mandala de areia... Quando a mandala, enfim, fica pronta; eles, prontamente,  destroem-na. Não há homenagem maior à impermanência das coisas, ao fogo, ao rio, à atividade em si e não ao resultado: Heráclito anda por aí e o wu wei também. Logos é o Tao do ocidente. A lição que fica para o artista aqui é o desapego, o gosto por dar forma: o ovo é o caos do pássaro, sem vaidade e sem esperar resultado. A orquídea não floresce por causa do olho humano, embora o olho humano saiba guardar a beleza. Mas, por que é que escrevi isso tudo mesmo, hein? Ah, sim! Eu também escrevi um livrinho intitulado A delicadeza dos hipopótamos, no qual, basicamente, um filho volta à cidade onde nasceu para tomar o lugar do pai... Mesmo sem saber, mesmo contra a vontade, mesmo sem ter filhos; um dia, nós também nos tornamos o pai.
Meu pai sempre teve habilidade para trabalhos braçais... Trabalhava em metalúrgica, mas faz, desde sempre, trabalhos de pedreiro, eletricista, marceneiro, encanador; e, quanto maior o desafio, melhor. Já com mais de sessenta e cinco anos levantou, praticamente sozinho, um sobrado de sete cômodos nos fundos de casa. Quando alguém perguntava para que ele estava fazendo aquilo, naquela idade, quem iria morar lá, ele respondia sereno:
- Tenho netos, mas não sei. Meu trabalho é fazer...
Quando precisava fazer algum trabalho na minha própria casa, sempre chamava meu pai...  Nunca tive tempo ou vontade. Quando eu mesmo tinha de fazer o serviço, caminhava até a casa do velho e pegava a ferramenta necessária emprestada. Ele ficava puto. Um homem tem de ter suas ferramentas! Pois bem, aos poucos, fui tomando gosto em arrumar as coisas, em colocar tudo nos seus devidos lugares. A vida fica mais fácil com um pouco de organização e Deus não entra em casa suja. Então, dias atrás, fui até uma casa de materiais para construção e comprei uma furadeira, um martelo, a marreta, uma caixa de ferramentas completa, parcelada em três vezes no cartão. Gosto de escrever e, enfim, percebi que escrever e consertar as coisas quebradas que encontro pelo caminho são trabalhos semelhantes.

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO

Ando pensando em Alberto Caeiro: “Há metafísica bastante em não pensar em nada.” - e em Martin Heidegger. O mundo em si é simples, se aceitarmos o mistério. É preciso não ter filosofia para compreender as coisas. Talvez por isso o Rosa tenha recorrido aos jagunços, às crianças, aos cangaceiros; eles é que são os sábios. A sabedoria é natural. Há quem tenha sabedoria, mas não conhecimento. Há quem tem conhecimento, mas não sabedoria. E há os raros que têm tanto conhecimento quanto sabedoria... Lao Tsé: “Conhecer reconhecendo a ignorância fundamental é saúde mental.” O problema é que já chegamos às coisas com as lentes sujas. Desde a infância, na escola, o humanismo deposita conceitos e mais conceitos em nós... E, quando chegamos às coisas recheados de conceitos, perdemos as coisas porque projetamos a nós mesmos em tudo o que vemos. Contaminamos tudo! Estamos tão mergulhados na complexidade, que, quando dizemos as coisas mais simples, como fez Heidegger, parecemos complexos. Quando perdemos a naturalidade, sofremos e, quando sofremos, tornamo-nos Midas, tudo o que tocamos – com o ouro da razão – destruímos. Olha o Rio Doce. Outro dia vi uma reportagem. Destruímos o rio; mas a natureza, aos poucos, se reconstrói. Basta deixar o Rio quietinho e, em alguns anos, o teremos vivo de novo. Mas este é nosso grande desafio: ficar quieto, deixar as coisas quietas... Temos a impressão de que temos de estar o tempo todo fazendo alguma coisa, é um modo de não lembrarmos nossa finitude, nosso nada... Mas, ao não nos aquietarmos, vamos violentando as coisas. E, depois, quando aparecemos com as soluções, as conquistas da tecnologia e das ciência$, esquecemos que boa parte delas são soluções para problemas que nós mesmos criamos – é um círculo vicioso – ainda que a aspirina seja uma tremenda invenção, como percebeu o João Cabral.

sábado, 30 de setembro de 2017

SERENIDADE

(para Nivaldo Ornelas)
Feito gatos
os pensamentos vêm se alojar no meu regaço.
Não me apego a eles.
Observo-os.
Acaricio a cabeça deles.
E, um após o outro,
deixo-os passar.
Eu não sou meus pensamentos,
Sou o sopro.

sábado, 23 de setembro de 2017

MEU DOCE SENHOR

Pergunta-se ao menino:
- O que é que você tem, Dan?
- Nada.
- O que é que você tá fazendo sozinho aí?
- Nada.
E qualquer um pode afirmar a ausência do Ser, mas quem postularia a ausência do nada?
É pelo silêncio que o som se revela; é pelo nada que sentimos o Ser e é suave, e é doce.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O ÚTIL E O INÚTIL

O olho útil não vê a floresta, vê um reservatório de minérios. O olho útil não vê a montanha, vê reservatório de pedras; não vê a cachoeira, vê produção de eletricidade. Nada contra o olho útil; mas o olho inútil, o olho que guarda, salga a terra, abençoa os campos, sagra os bichos e as flores; é o lugar onde a Natureza, o Ser, Deus, o Tao manifesto, o nome que você quiser dar à Consciência, abre-se para se rejubilar das belezas que criou.
O olho inútil é o guardião do Mistério. Ele sabe que o transcendental não se encontra no Além, mas na sensualidade de menina, na calma do gato, na volúpia do bode, na força do leão.
Disse Chuang Tzu:
“Todo homem sabe como é útil ser útil
Ninguém parece saber
Como é útil ser inútil”.
Disse Manoel de Barros:
“O poeta é um inútil, tão inútil quanto um trapo”.
Disse Martin Heidegger:
“O homem não é o Senhor do Ente. O homem é o pastor do Ser”.
Adoecemos porque esquecemos a importância do inútil.
Sentado sobre a ponte, observo o rio lodoso, sujo, ferido, violentado, fraturado da minha cidade. Ele, assim como eu, corre ao contrário, em busca da própria Fonte. O homem é um regato cuja fonte se encontra velada. Ele, assim como eu, lava-se, limpa-se, em suas próprias águas. A diferença é que ele flui, às vezes lento, às vezes ágil; enquanto que eu permaneço sentado, coluna ereta, coração tranquilo, deixando a correnteza que me atravessa fazer seu trabalho.
Como é útil ser inútil!

sábado, 16 de setembro de 2017

Madre


Vejo o café caindo no bule e não consigo conter as lágrimas, mesmo assim continuo coando o café. É incrível a capacidade que as coisas têm de prosseguir. Do fundo do bule ouço o eco da sua voz grossa repetindo: Deixe disso menino, homem não chora. Agora choro sim, mas não choro alto. Choro baixo, por dentro, porque até esse café me parece impossível, absurdo, depois que ela se foi. Você dizia que eu não tinha responsabilidade, pai, agora tenho. Tenho responsabilidades até demais, mas minha filha vive longe, numa outra cidade, talvez você dissesse que isto também é culpa minha e talvez até seja mesmo. Mas não quero me explicar. Sinto asco desse eco da sua voz no bule. Sinto asco de tudo o que fomos e do fracasso, do abismo que existe entre você e eu. Não vou ficar aqui explicando nada, ou tentando te entender e me entender. Prefiro provar desse café amargo e sair pra rua, embora saiba que a rua também não vai resolver. Embora saiba que, na rua, as pessoas caminharão sem saber que ela morreu e já faz algum tempo. As pessoas continuarão caminhando indiferentes, voltando pra casa, indo ao bar, à padaria de pães frescos e perfumados, às farmácias que vendem a cura para quase tudo. Prefiro, e isto é uma certeza, sair pra rua. Ainda que chova, não me importa a chuva, porque é como se ela não me molhasse é como se essa dor imensa me protegesse dos pingos, como aqueles anjos dos quadros que têm na cabeça uma auréola dourada.
            Há tempos não faço a barba. Mas não pareço o leão, não aquele leão forte do circo que o senhor dominava sem fazer o menor esforço, pareço mais com um cachorro, um cachorro do qual o senhor nem deve se lembrar. Um cachorro sarnento, banguelo e vesgo que um dia apareceu pelo circo, não me lembro em que cidade estávamos, e ela, a nossa Carmen, o alimentou e cuidou dele, mas o senhor não permitiu que ele, o cachorro, seguisse viagem com a gente e quando desmontamos o acampamento e colocamos tudo nos caminhões e estávamos indo embora ele ficou parado, quieto, no meio do terreno, nos olhando como se entendesse tudo.
            O senhor pode até estar achando ridículo todo este sentimentalismo, afinal, como o senhor mesmo disse, ela nem era minha mãe, era apenas uma de suas mulheres, mas foi ela quem me criou e cuidou de mim e me fez enxergar umas coisas bonitas no mundo. É difícil pensar nisto tudo, ficar lembrando e relembrando, mas nem sei se uma coisa que nunca sai da cabeça da gente pode ser chamada de lembrança. Com certeza, você vai achar que estou exagerando, que estou pegando pesado no sentimentalismo. Toda bicha é exagerada.Você costumava dizer; mas, ao contrário do que você pensava, não sou veado. Sou homem, porra! E, apesar de tudo, tenho até orgulho de me parecer com você em algumas coisas. É verdade que não são muitas, na minha opinião, as coisas nas quais nos parecemos, mas para Carmen sim, eram muitas as semelhanças, ela vivia dizendo que eu me parecia cada dia mais com o senhor. Só queria saber por que você nunca mais voltou? Queria saber o que foi que fizemos de errado pai, pro senhor desaparecer assim? Depois que o senhor se foi, ela nunca mais tocou violão, nunca mais colocou um daqueles vestidos vermelhos ou fez uso de suas castanholas. Pra ela havia eu, que era parecido com o senhor, mas que não era o senhor e muitas vezes eu me deitei com ela pra tentar consolá-la, não como um amante, nem como um filho, nem como um marido. Não sei definir o que éramos um para outro, só sei que não havia sujeiras.
            Não tenho casa pai. Talvez nisto também tenha puxado o senhor. Vivo neste quarto até agradável, entretanto sei que amanhã, ou depois de amanhã, não estarei mais aqui. Não sei se estou procurando pelo senhor, sei que não paro quieto e que nós dois estamos juntos e sós neste mundo. De alguma forma, nós dois somos uma coisa só, apesar de separada. Foi difícil pra mim admitir isto, sei que pro senhor também será, mas é a verdade.
            O pior é que no final ela nem conseguia se levantar mais. Já não falava, estava velha, murcha, triste, mas os olhos dela... Ah! os olhos dela, gostaria que o senhor pudesse ter visto os olhos dela. E pra acabar de piorar tudo de vez a Mariana, essa minha ex-mulher, começou a implicar com ela, estranhava talvez o excesso de ternura que havia em mim por ela, Carmen. Ela nem é sua mãe.  Dizia, também, constantemente, Mariana. Não sei se ela desconfiava do que havia entre nós, mas o fato é que nos últimos tempos ela, Mariana, não suportava mais olhar pra Carmen e Carmen também não a suportava, isto percebia-se pelo olhar dela. O cúmulo, o ápice desta situação maluca foi numa tarde em que eu cheguei do trabalho e encontrei a Mariana esbofeteando feito um bicho doido o rosto da nossa Carmen. Num ímpeto cheio de fúria expulsei essa mulher de casa, com filha e tudo, pus ela pra correr a pontapés e coloquei Carmen na cama,  as lágrimas escorriam pelo rosto ainda moreno, e me deitei junto dela em silêncio, no silêncio mais profundo e luminoso que o mundo já fez.
            Abandonei o emprego, contratei um enfermeiro, comprei um carro pra levá-la ao hospital, cheguei até a me vestir de palhaço e animar festas como antigamente pra conseguir algum dinheiro visando o tratamento dela, mas nada adiantou. Um dia, de manhã, ela simplesmente não abriu os olhos.Como diriam em Minas Gerais, acordou morta.
            Enterrei-a só. Chorei só. Voltei pra casa onde eu morava, só. E continuo só, mas não é uma solidão pequena como essas de alguém que se tranca no quarto. É uma solidão imensa, profunda, solidão de quem está só num mundo inteiro vazio. Por isto escrevo pro senhor mesmo sem saber para onde enviar a carta, porque o senhor é a única pessoa no mundo inteiro que pode me fazer companhia nesta dor. O senhor é a única pessoa que pode habitar comigo esta dor certa, real, indescritivelmente verdadeira e eterna.
            Por enquanto vou caminhando à noite e volto pra casa quase sempre debaixo dessa garoa fina. Bebo o café que eu mesmo preparo e, quando sinto vontade, estendo crisântemos e rosas vermelhas na janela.