terça-feira, 19 de setembro de 2017

O ÚTIL E O INÚTIL

O olho útil não vê a floresta, vê um reservatório de minérios. O olho útil não vê a montanha, vê reservatório de pedras; não vê a cachoeira, vê produção de eletricidade. Nada contra o olho útil; mas o olho inútil, o olho que guarda, salga a terra, abençoa os campos, sagra os bichos e as flores; é o lugar onde a Natureza, o Ser, Deus, o Tao manifesto, o nome que você quiser dar à Consciência, abre-se para se rejubilar das belezas que criou.
O olho inútil é o guardião do Mistério. Ele sabe que o transcendental não se encontra no Além, mas na sensualidade de menina, na calma do gato, na volúpia do bode, na força do leão.
Disse Chuang Tzu:
“Todo homem sabe como é útil ser útil
Ninguém parece saber
Como é útil ser inútil”.
Disse Manoel de Barros:
“O poeta é um inútil, tão inútil quanto um trapo”.
Disse Martin Heidegger:
“O homem não é o Senhor do Ente. O homem é o pastor do Ser”.
Adoecemos porque esquecemos a importância do inútil.
Sentado sobre a ponte, observo o rio lodoso, sujo, ferido, violentado, fraturado da minha cidade. Ele, assim como eu, corre ao contrário, em busca da própria Fonte. O homem é um regato cuja fonte se encontra velada. Ele, assim como eu, lava-se, limpa-se, em suas próprias águas. A diferença é que ele flui, às vezes lento, às vezes ágil; enquanto que eu permaneço sentado, coluna ereta, coração tranquilo, deixando a correnteza que me atravessa fazer seu trabalho.
Como é útil ser inútil!

sábado, 16 de setembro de 2017

Madre


Vejo o café caindo no bule e não consigo conter as lágrimas, mesmo assim continuo coando o café. É incrível a capacidade que as coisas têm de prosseguir. Do fundo do bule ouço o eco da sua voz grossa repetindo: Deixe disso menino, homem não chora. Agora choro sim, mas não choro alto. Choro baixo, por dentro, porque até esse café me parece impossível, absurdo, depois que ela se foi. Você dizia que eu não tinha responsabilidade, pai, agora tenho. Tenho responsabilidades até demais, mas minha filha vive longe, numa outra cidade, talvez você dissesse que isto também é culpa minha e talvez até seja mesmo. Mas não quero me explicar. Sinto asco desse eco da sua voz no bule. Sinto asco de tudo o que fomos e do fracasso, do abismo que existe entre você e eu. Não vou ficar aqui explicando nada, ou tentando te entender e me entender. Prefiro provar desse café amargo e sair pra rua, embora saiba que a rua também não vai resolver. Embora saiba que, na rua, as pessoas caminharão sem saber que ela morreu e já faz algum tempo. As pessoas continuarão caminhando indiferentes, voltando pra casa, indo ao bar, à padaria de pães frescos e perfumados, às farmácias que vendem a cura para quase tudo. Prefiro, e isto é uma certeza, sair pra rua. Ainda que chova, não me importa a chuva, porque é como se ela não me molhasse é como se essa dor imensa me protegesse dos pingos, como aqueles anjos dos quadros que têm na cabeça uma auréola dourada.
            Há tempos não faço a barba. Mas não pareço o leão, não aquele leão forte do circo que o senhor dominava sem fazer o menor esforço, pareço mais com um cachorro, um cachorro do qual o senhor nem deve se lembrar. Um cachorro sarnento, banguelo e vesgo que um dia apareceu pelo circo, não me lembro em que cidade estávamos, e ela, a nossa Carmen, o alimentou e cuidou dele, mas o senhor não permitiu que ele, o cachorro, seguisse viagem com a gente e quando desmontamos o acampamento e colocamos tudo nos caminhões e estávamos indo embora ele ficou parado, quieto, no meio do terreno, nos olhando como se entendesse tudo.
            O senhor pode até estar achando ridículo todo este sentimentalismo, afinal, como o senhor mesmo disse, ela nem era minha mãe, era apenas uma de suas mulheres, mas foi ela quem me criou e cuidou de mim e me fez enxergar umas coisas bonitas no mundo. É difícil pensar nisto tudo, ficar lembrando e relembrando, mas nem sei se uma coisa que nunca sai da cabeça da gente pode ser chamada de lembrança. Com certeza, você vai achar que estou exagerando, que estou pegando pesado no sentimentalismo. Toda bicha é exagerada.Você costumava dizer; mas, ao contrário do que você pensava, não sou veado. Sou homem, porra! E, apesar de tudo, tenho até orgulho de me parecer com você em algumas coisas. É verdade que não são muitas, na minha opinião, as coisas nas quais nos parecemos, mas para Carmen sim, eram muitas as semelhanças, ela vivia dizendo que eu me parecia cada dia mais com o senhor. Só queria saber por que você nunca mais voltou? Queria saber o que foi que fizemos de errado pai, pro senhor desaparecer assim? Depois que o senhor se foi, ela nunca mais tocou violão, nunca mais colocou um daqueles vestidos vermelhos ou fez uso de suas castanholas. Pra ela havia eu, que era parecido com o senhor, mas que não era o senhor e muitas vezes eu me deitei com ela pra tentar consolá-la, não como um amante, nem como um filho, nem como um marido. Não sei definir o que éramos um para outro, só sei que não havia sujeiras.
            Não tenho casa pai. Talvez nisto também tenha puxado o senhor. Vivo neste quarto até agradável, entretanto sei que amanhã, ou depois de amanhã, não estarei mais aqui. Não sei se estou procurando pelo senhor, sei que não paro quieto e que nós dois estamos juntos e sós neste mundo. De alguma forma, nós dois somos uma coisa só, apesar de separada. Foi difícil pra mim admitir isto, sei que pro senhor também será, mas é a verdade.
            O pior é que no final ela nem conseguia se levantar mais. Já não falava, estava velha, murcha, triste, mas os olhos dela... Ah! os olhos dela, gostaria que o senhor pudesse ter visto os olhos dela. E pra acabar de piorar tudo de vez a Mariana, essa minha ex-mulher, começou a implicar com ela, estranhava talvez o excesso de ternura que havia em mim por ela, Carmen. Ela nem é sua mãe.  Dizia, também, constantemente, Mariana. Não sei se ela desconfiava do que havia entre nós, mas o fato é que nos últimos tempos ela, Mariana, não suportava mais olhar pra Carmen e Carmen também não a suportava, isto percebia-se pelo olhar dela. O cúmulo, o ápice desta situação maluca foi numa tarde em que eu cheguei do trabalho e encontrei a Mariana esbofeteando feito um bicho doido o rosto da nossa Carmen. Num ímpeto cheio de fúria expulsei essa mulher de casa, com filha e tudo, pus ela pra correr a pontapés e coloquei Carmen na cama,  as lágrimas escorriam pelo rosto ainda moreno, e me deitei junto dela em silêncio, no silêncio mais profundo e luminoso que o mundo já fez.
            Abandonei o emprego, contratei um enfermeiro, comprei um carro pra levá-la ao hospital, cheguei até a me vestir de palhaço e animar festas como antigamente pra conseguir algum dinheiro visando o tratamento dela, mas nada adiantou. Um dia, de manhã, ela simplesmente não abriu os olhos.Como diriam em Minas Gerais, acordou morta.
            Enterrei-a só. Chorei só. Voltei pra casa onde eu morava, só. E continuo só, mas não é uma solidão pequena como essas de alguém que se tranca no quarto. É uma solidão imensa, profunda, solidão de quem está só num mundo inteiro vazio. Por isto escrevo pro senhor mesmo sem saber para onde enviar a carta, porque o senhor é a única pessoa no mundo inteiro que pode me fazer companhia nesta dor. O senhor é a única pessoa que pode habitar comigo esta dor certa, real, indescritivelmente verdadeira e eterna.
            Por enquanto vou caminhando à noite e volto pra casa quase sempre debaixo dessa garoa fina. Bebo o café que eu mesmo preparo e, quando sinto vontade, estendo crisântemos e rosas vermelhas na janela. 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

HALLELUJAH

NO FUNDO, TODO DESEJO É DESEJO DE SER AMADO. Almejamos fama, poder, bens, porque imaginamos que, com isso, seremos mais amados. O desejo, entretanto, não é amor, mas ruína. E, mal realizamos um desejo, passada a euforia, notamos que o buraco continua lá. E, Deus, como dói! Há uma frase de Nijinski: “sou aquele que morre quando não é amado”. A fama é um modo de tentar encher o buraco com amor, uma ilusão de ser amado por todos. Por mais que tivesse a aprovação do mundo, faltava ao cantor Johnny Cash a aprovação e o reconhecimento do pai. O mesmo acontecia com a estupenda Etta James. Almejamos a fama, porque imaginamos que a admiração do mundo fará com que aquele amor fraturado pelo qual ansiamos: do pai, da mãe, dos irmãos mais velhos, virá de troco quando perceberem o que realizamos, o quanto o mundo nos admira, só que não. Almejamos o poder; porque, já que não temos amor, nos contentamos com o medo, ou ao menos o respeito alheio, só que não também. Almejamos dinheiro e bens; porque, já que não nos achamos dignos de amor, que ao menos admirem nosso carrão, nossas joias, nossa casa na praia; só que... Não!
Aquilo que deseja em nós, deseja sempre mais. O desejo quer desejar e lança sempre seus tentáculos para fora, para o que não se tem. Nunca haverá satisfação, porque a falta é nosso pecado original. A solução nunca está fora. O rei Davi tinha mais de mil mulheres, mas desejou a companheira de Urias, Betsebá, e essa foi tanto a ruína do rei quanto a do soldado.
A solução, então, é encontrar-se, lançar para dentro aquilo que se busca fora. Amor próprio, ou auto-amor. Precisamos ser pacientes conosco, como somos com nossos filhos. Precisamos nos amar como amamos os filhos, os quais não precisam nos conquistar ou impressionar, basta que sejam como são. Se vierem a fama, o dinheiro e o poder, ficaremos felizes por eles, os filhos, mas isso não é condição indispensável. Dos filhos, amamos até os defeitos. Jesus de Nazaré deixou um único mandamento que nos conclama a amar ao próximo como amamos a nós mesmos. Se não nos amamos, se não nos aceitamos e compreendemos como somos - iluminados e obscuros -, que tipo de sentimentos e exigências lançaremos na direção do outro?
Viver é simples, tem cheiro de café e som dos pássaros cantando lá fora.

domingo, 10 de setembro de 2017

NOSTALGHIA

Muitas vezes, não sei bem o porquê, as pessoas vêm falar comigo. O tio da van sempre parava para bater papo enquanto as crianças não saíam da escola. Eu ficava ali, cumprindo meu horário e ele esperando. Eu o admirava pela paciência, pelo modo como se dedicava aos pequenos. Nem sempre é fácil lidar com eles. Geralmente conversávamos sobre trivialidades: o prato-feito mais gostoso da vila, a melhor feira livre, o pastel mais gostoso... Pelo modo como era delicado, eu sabia que ele tinha uma pereba escondida em algum canto sob a roupa: um amor fracassado, ou um filho morto, ou uma filha que caiu na vida... Algum espinho tinha. E eu o admirava por isso. Certa manhã, pouco antes do meio dia, ele estava triste; mais triste que o normal. O contrato dos donos de vans com a prefeitura tinha sido revogado e ninguém mais trabalharia. Aquele era o penúltimo dia de trabalho.
- E aí – ele disse.
- É, está chegando ao final, não é mesmo?
- Pois é.
- A canalha política sempre apronta dessas. Como é que você vai fazer agora?
- Sabe, profe, daqui a uma semana completo sessenta e cinco anos... Já estou aposentado. Amanhã volto para minha terra. Quero terminar meus dias por lá, no lugar onde nasci, onde sonhei.
- Isso é bom.
Ele suspirou, sorriu meio sem graça. O sol brilhou de um jeito estranho nos olhos azuis, no cabelo branco. A luz era tanto mão quanto carícia.
- Volto pra morrer em casa. Toda a vida, vivi uma ilusão. Até semana passada ainda sonhava com um milagre... Vim do interior para me dedicar à música, para viver de música, sabia? Nunca deu certo. Trabalhei, casei, comprei casa, carro, sítio, criei os filhos... Cantei em casamentos, mas nunca aconteceu. Agora desisti... Não tenho mais porque ficar aqui.
Eu não soube o que dizer. Fiquei quieto. Não demorou muito, as crianças saíram. Ele pegou as pequenas no colo e ajeitou no banco do meio, os maiorzinhos espalhados entre os bancos de trás e o da frente. Acenou com a mão. Alguém gritando.
- Inté, profe!
- A gente se vê por aí, Seo Genaro.
Deu a partida e saiu devagar, olhando o prédio, os grafites no muro, a quadra: todo o concreto em silêncio.
Quando os velhos voltam para morrer no lugar onde brincaram na infância... Quando voltam com troféus e sonhos não realizados nas malas, eu me lembro da miséria e da comédia humana e de um filme do qual ninguém gosta e da palavra que lhe dá título: NOSTALGHIA.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

QUALQUER DIA, AMIGO, EU VOLTO A TE ENCONTRAR

Não fui um adolescente fácil; mas não era minha culpa, é que, de repente, eu via hipocrisia em tudo: a tia moralista tinha tido um caso na juventude; o parente conservador tinha abandonado a família. Jovem é bicho muito exigente! E aí, com vinte anos, fui morar em Assis. Perdi uma pessoa que achei que levaria para o resto da vida e fiz o que qualquer garoto saudável e rock n´roll faria: farra! Disse a boca sob o bigode: “quando o orgulho está em jogo, a memória cede”. Cedeu, mas demorou alguns litros de cerveja e alguma dor de cabeça pra um bocado de gente que gostava de mim.
Como estava longe de casa, quem mais cuidava de mim era meu amigo Francisco. Ele era um pouco mais velho, já tinha família, quatro filhos. Éramos da mesma sala. Fazíamos todos os trabalhos juntos. Ele sempre aconselhando. Fazia questão de me levar pra almoçar em casa, antes de começarmos as atividades. Percebia que eu andava comendo muita água e pouca comida. Lembro da pescaria no sítio dele... Voltei com a sacola cheia de peixes, mistura pra uma semana.
Terminamos a faculdade, começamos a lecionar, voltei pra São Paulo, interessei-me por filosofia. O Francisco sempre foi um tremendo professor; eu, nem tanto. E então, em março deste ano, meu amigo Francisco morreu; assim, do nada. Aos cinquenta e sete anos. Fiquei sabendo na manhã seguinte. Larguei tudo aqui, peguei o carro e corri pra Assis. Levei duas multas por excesso de velocidade e, nem assim, consegui chegar a tempo... Mas consegui dar um abraço na esposa e nos filhos dele.
Outro dia foi aniversário do Francisco. Ele completaria 58 anos. O facebook me lembrou. Passei o dia pensando no cara e ouvindo as canções de que ambos gostamos. No dia seguinte, tinha de ir pra Amparo, visitar minha sogra que está internada. No caminho, um caminhão imenso fechou meu carro. Viajou à minha frente por uns trinta quilômetros. Na traseira estava escrito: TCHESCO. Apelido que eu tinha colocado no meu amigo, ao qual também chamava de Paco, dependendo do grau de pinga. Afeto, laços e sincronicidade.
Acho que hoje tento dar aulas melhores. Minha maneira de dizer que o incorporei a mim, Tchesco. De dizer sua importância. De relembrar nossos sonhos de escrita e leitura.
Qualquer dia, Francisco Campos, a gente vai se encontrar.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A LEITURA É INÚTIL,

A LEITURA É INÚTIL,
mas isso não é ruim. Qual é a utilidade de um beijo? De um sussurro? De segurar um filho nos braços? Qual é a utilidade de por os pés no mar? De ouvir uma canção? Não podemos transformar o ato de ler em um meio. A leitura é um fim em si mesmo. Não lemos, ou não deveríamos ler, para ter assunto, argumentos, para escrever curriculum vitae, ou vencer debates... Tudo isso pode vir com a leitura; mas a leitura é do âmbito do ser e tanto pode envolver o fracasso quanto a glória.
Filosofia é o nome de uma coruja velha, desdentada.
Trituramos a infância preparando as crianças para a batalha da vida.
Não podemos confundir um homem com uma chave de fenda... Uma mulher com um alicate. O ser humano não é uma ferramenta, um recurso. Claro, todos temos papéis sociais: “você acredita que é um doutor, padre ou policial e que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social”; entretanto, a máscara não é o rosto, o papel não é o ator, o falso self não pode usurpar o lugar do self verdadeiro. O gerente não é o dono do corpo, o corpo é.
No meu trabalho, tem um quadro com os benefícios da leitura. Eu olho, eu sorrio. A leitura é aventura e não há aventura maior que respirar. O útil constrói, mas é o inútil que dá sentido. Utilizamos apenas a exata extensão do solo que está sob nosso pés; mas já imaginaram o que aconteceria se todo o resto da terra, por ser inútil neste instante, desaparecesse?
Fado, sina, lei, tesouro.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O GUARDIÃO DE ALMAS


“Vidas pequenas na esquina.”
“E o grão de tão pequeno ser tão grande o que a gente é. Ser esse destino de pessoa que sonhou.” Você pode chamá-lo de comerciante, uma vez que vendia livros. Você pode chamá-lo de monge, uma vez que acendia incensos e cuidava dos livros como se fossem a materialização das almas dos sábios ancestrais. Você pode chamá-lo de velho; quando eu o conheci, ele já tinha mais de setenta. Lembro que sempre havia um perfume no ar. Às vezes era incenso de flor de laranjeira, às vezes era o odor do cachimbo. Onde há fumaça, há fumaça. Para que especular? Coração tranquilo... O sebo era perto de casa, mas não muito. Dava uns vinte minutos a pé. Comecei a frequentá-lo com 14... 15 anos. Quando tinha algum dinheiro, comprava livros. Quando não tinha, trocava. Quando não podia comprar nem trocar, ele me emprestava. Foi assim que conheci Machado de Assis, Clarice Lispector, Sylvester Stallone e o clássico Hell´s Kitchen, Kerouac, Proust. O velho tinha sido bibliotecário e agora, depois da aposentadoria, abrira um sebo na periferia porque não conseguia ficar longe dos livros. Se tive algum mentor, devo dizer que foi ele, pois foi, dentre outras coisas importantes, quem primeiro me apresentou os beats. Eu sempre aparecia com uma camiseta de banda de rock. Então, um dia, ele me deu o On the road, na edição da brasiliense: “acho que você vai gostar desse.” Na mosca. De outra feita, falou-me do autor que influenciara os beats: Proust. “Todos esses volumes são um único livro?” “Sim, e que livro!” Comecei a ler No Caminho de Swann, mas não passei da página 84, ficava nervoso com o protagonista mimado querendo um beijo da mamãe, pulei logo para Sodoma e Gomorra😯! Até hoje não li Em busca do tempo perdido na íntegra, como também não li a Bíblia. Uma vez, cheguei lá e ele estava meditando... O incenso... O silêncio... Depois abriu os olhos: “Não basta ler os livros dos outros. Livros são olhares sobre o mundo, almas presas ao papel. É preciso também ler o livro que se é e o livro do mundo. Voltar às coisas mesmas.” 
Passou tempo. Fui pra Assis estudar. Quando voltei pra casa, fui ao Sebo. Ele não estava mais lá. Uma velhinha, esposa, tomava conta do lugar. “Ele morreu dormindo.” O incenso de laranjeira ainda queimava. Como o perfume do incenso, o guardião de almas agora se espalhava no ar e, ao mesmo tempo, se reunia às almas irmãs.
Ontem, entrei numa loja de produtos naturais pra comprar mel, ando meio gripado, e senti o cheiro de incenso de laranjeira. Automaticamente, todo um mundo se reconstruiu em mim... Mortos voltaram à vida, eu rejuvenesci, livros contemplavam silenciosos o adolescente... Odor de cachimbo e flor. O passado não foi, o passado é. Quando me movimento, o passado se movimenta comigo. Se sento, o passado também se senta e espera pra engendrar o futuro.