sexta-feira, 16 de março de 2018

TUDO QUE VOCÊ PRECISA É...

Filósofos e filósofas são, em geral, seres mancos de amor. Cabeças grandes demais para corações atrofiados. A maioria não sabe de si; são muito bons em pesar, analisar, sintetizar, avaliar, julgar; mas se esqueceram de olhar pra dentro. É bem o que Nietzsche diz logo no início de Genealogia da moral. Eles, os pensadores, podem destrinchar as estruturas sociais, as induções culturais que nos constituem enquanto indivíduos; mas muito poucos sabem o valor de um beijo, de um abraço. Ninguém nasce mulher, torna-se; mas para a além das pressões sociais, que exigem um padrão de comportamento, há o olho da mãe no olho bebê enquanto o amamenta e isso é revelação primordial: amor. Nem tudo é um constructo sociocultural! Talvez, eles, pensadores e pensadoras, morram abraçados ao monstro que combatem porque não conseguem superá-lo, ir além. Não conhecem a totalidade de si mesmos, olharam demais para fora. Quando combatemos monstros, corremos o risco de nos tornarmos um deles. Quando olhamos por muito tempo um abismo, o abismo também olha pra dentro de nós.
Dizem que homem não chora, não dá defeito, tudo suporta sem demonstrar fraqueza. Somos programados pelos super-heróis, pela escola, pelas instituições religiosas para sermos duros, impenetráveis. Nem batman, nem o super-homem são raquíticos. Acontece que, um dia, a cachorrinha aqui de casa foi atropelada. Não sabíamos se estava viva ou morta. Meu filho de dez anos esperou as notícias na casa da minha mãe enquanto fui conferir o que havia acontecido. A Piti estava morta. Precisei dar um jeito no cadáver. Voltei pra casa da mãe. Ele perguntou, ainda tentando segurar pela mão o fiapo de esperança:
- E aí, pai?
- Ela morreu, João.
O menino, que aos dez já tentava agir como machinho, pediu colo e choramos abraçados, juntos, doloridos, coração a coração. E, neste momento, estávamos num lugar muito além de todas as pressões sociais, longe da ilusão de um eu-individual, criado pela cultura, separado da flor e do beija-flor. Não existia sequer a lembrança de que precisávamos ser vencedores-fortes. Longe daquilo que se impõe enquanto padrão materno, há a beleza da barriguinha do bebê em contato com a mão da mãe. Longe do padrão pai-indestrutível, há o hálito do filho ao acordar. O amor, assim como a morte, não é uma criação cultural.
Longe das teorias, há o Sol e a Terra, o yin e o yang, o feminino e o masculino, homens muito femininos e mulheres muito másculas e entre e, para além de ambos, o amor e olhos que não mentem.

quinta-feira, 8 de março de 2018

AMOR-NAVALHA

- O amor tem muito de lençol, mas também muito de navalha, Bahia – ele me dizia de seu leito. Estávamos internados numa comunidade terapêutica para pessoas com problemas ligados ao álcool ou a outras drogas. - Nessa época, eu bebia conhaque, Bahia – continua. - Ele, por essa luz que me alumia, não bebia nada. Era um rapaz ainda novo, vinte e poucos anos. Trabalhador, cumpridor. Palavra dele, gente podia fazê fé. Se dizia ansim: amanhã chego às quatro da manhã; dez pras quatro, o homem estava lá. Mas mulher e mistério que embaralha o juízo da gente, ou não é? O muito amor é trem por demais de perigoso, cambia fácil no ódio demasiado. Quando terminava o serviço, nem banho ele tomava na obra; passava água nos braços e no rosto e corria pra pegar o trem das cinco e quinze. Se saía de casa, era só pra tomar um suco com a esposa. Por essa luz, Bahia. Casado de novo - a gente dizia - isso depois passa. Passa nada... Aí aconteceu de vagar um serviço de copeira no escritório da construtora que era ansim bem de frente da obra, mesmo rumo. A moça era bonita, sou franco em falar, Bahia, nem parecia pobre, porque pobre, mesmo quando é bonito, tem o rosto maltratado, o cabelo judiado. Enquanto assentava bloco, Januário, essa era graça dele, via a mulher limpando o salão, passando pano na vidraça, servindo café do outro lado da rua. Um ria de cá, a outra sorria de lá. É bonito, némemo, Bahia, quando a gente vê um casalzinho ansim jovem ainda gostando forte um do outro? Faz a gente crer na vida como em Deus; mas, nesse mundo tem gente ruim, Bahia, gente invejosa; felicidade do outro ofende, esfrega na cara a sujeira da alma nossa. Se bem alembro, o fuxico começou com um tal  Iago Biobá. Brincando, que peão brinca mesmo, não tem jeito, ô raça, ele falou ansim: “vê lá que a moça de Januário tá de graça com Seo Armando, engenheiro, mulher formosa como aquela, não tem como se contentar com ajudante de pedreiro”. Sou franco em falar, Bahia, espreitei, pra ver se era à vera, mas qual nada. A moça era séria. Peão é bicho invejoso, Bahia: os menino começando a vida e vem uma alma sebosa dessa pra espalhar discórdia. Nem foi de um dia pro outro, foi não; demorou. De toda forma, a conversa se espalhou na obra. Januário passava sério, alguém jogava piadinha e se ria, às veis, mesmo sabendo que nem era verdade. Só pra ver o oco, azedar o pé do frango do semelhante. E aí Januário ficou sabendo, meu fí... Quis matar um, levantou enxada pra outro. “Se acalma, Bahia, vai fazê fé em conversa de Tiriça. ” – Falei. Ele ouvia eu. Deu abrigo à palavra que soltei. Mas, desse dia em diante, não ria mais pra menina do outro lado, no escritório, só espreitava: a cara ruim, o coração cimentado. Dava a hora de ir embora, ele ia na frente, deixava a moça pra trás, ela dava umas corridinha, tentando acompanhar, mas qual o quê? Homem é bicho orgulhoso, quando empedra o peito, nem brisa fresca atravessa. E aí sucedeu. A trilha da desgraça tava no chão, só que ninguém enxergava, tá bom? Bem no dia da mulher, 8 de março, me alembro como se fosse hoje. Seu Armando deu um buquê de flor pra menina. Pra quê, némemo? Não sabe que homem bruto é bruto e mais nada? Pois na hora do café, Januário soube. Atravessou a rua, entrou no escritório, jogou o buquê na cara do engenheiro e picou a pá na cabeça... Uma, duas, três, quatro... Dez vezes... Até a cabeça do homem virá uma pasta. A moça correu pra obra. Januário veio, não era gente, era o cão. Ela gritava que não tinha feito nada, que era inocente; mas ele não cria. Tava cego. Ela correu pra trás de um, pra trás de outro. Todo mundo de esguelha. Januário com a navalha na mão. A moça tentou subir escada, trupicou, a pobre. Caiu mole no chão, pedindo pelo amor de Deus. Januário beijou na boca e, ainda beijando, cortou a garganta da moça, até quase arrancar a cabeça. Os zóio dela, menino... quanta dor tamanha de morrer pelas mãos de quem amava! Parecia os zóio da virgem. Quando saiu de cima, Januário caiu de lado e desandou chorar, nem fugir tentou... Eu vi, mas não foi só eu. Todo mundo viu. Uma imagem igualzinha da moça soltou do corpo dela. Era a menina e não era, era ansim, feito ela, só que só numa luz, uma luz avermelhada, que se largou do corpo e foi subido pro céu de braços abertos, parecia crucificada tal qual Cristo nosso Senhor. Por essa luz, Bahia. Eu chorei, teve mais gente que chorou. Acho que era a alma da menina, vermelha, ensanguentada. E se perdeu por trás das nuvens...
Silêncio e pensamento.
Eu só almejava ir embora. Enquanto esperava o sono em silêncio, pensava na vida e nas mulheres, agora tão distantes, que amei.


quarta-feira, 7 de março de 2018

TAI CHI

Minha alma tem muitas faces
Nela, cabem um amante e um pai 
Um malandro e um músico
Uma virgem apaixonada e um peão de obra
Caminho ao longo do regato e me perco em meio a tantas trilhas
Uma delas leva à floresta, outra à catedral, outra ao candomblé
É natural que, sendo tantos, a boca por vezes se contradiga
Mas há na língua uma unidade
Feito o rio ao longo do qual caminho:
Embora as águas sejam sempre outras
O rio é o mesmo
Desde a nascente até a foz.


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

OGUM


Quando por uma série de erros, presépios e mancadas fui parar na cadeia, havia lá um cara chamado caubói. Não importam as circunstâncias, muito menos o lugar, um homem é o que é. Ou verdadeiro, ou canalha. Esse tal caubói, era tipo capitão do mato; falava alto com os detentos e manso com os guardas... Estava sempre do lado do poder. Vivia tramando contra os outros, inventando fofocas, manipulando a tudo e a todos que pudesse... Em suma, a canalhice em forma, corpo e sorriso humanos. Sempre que apertava as mãos dele, olhava-o nos olhos e segurava firme. Sou o que sou, tanto para o bem quanto para o mal. Não me faço de anjo; pois, como disse, já fui parar no xadrez; mas também não conspiro contra os mais frágeis. Eu sabia que esse tal caubói era muito mais boi do que qualquer outra coisa, achava que dominava o que quer que seja, mas era montado pelo sistema, pelos abutres. Eu me dava muito bem com todos os outros internos e isso o incomodava... Deixava o pastor orar sobre o meu pé doente, jogava dominó com a rapaziada, puxava o treino nos dias de sol. “Ô professor, chegaí!” “Professor, o que você acha de tal coisa?” “E aí professor, quem é que você acha que tem razão..?” Eu sentia que o tal caubói tinha inveja, raiva de mim. É o asco natural que brota entre a raposa e o leão. Eu o sentia o tempo todo tramando, mas ele nunca conseguia me pegar, porque eu não mentia, era sincero com minha natureza, andava despreocupado feito criança, mesmo ali, no meio das feras. 
Um dia, estava sentado na grama, olhando os morros da serra do mar, quando o caubói se aproximou por trás e me envolveu segurando meus braços. Ele não sabia da minha visão periférica. Sem qualquer esforço, abri meus próprios braços e me livrei do golpe que ele fingia ser de brincadeira, mas que eu sabia ser um teste. Fiquei surpreso, não sabia que o mal tinha braços tão frágeis, só que tem. Percebi que, se eu quisesse, poderia quebrar-lhe os braços sem piscar os olhos. Eu, devoto dessa imensa legião de Jorge.
Passou tempo, fui solto rápido e, antes do que se esperava, a casa do caubói caiu. Ele agora andava assustado, frágil, cagando de medo entre os outros prisioneiros; enquanto eu fui ver o mar.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

um sonho

TENHO UM COMPROMISSO com meus sonhos e, mais ainda, com as pessoas que aparecem neles; sempre faço algo para honrá-las: escrevo um poema, ouço uma canção, visito um lugar. Essa noite, sonhei que uma moça jovem, bonita, sensual, loira, telúrica encontrou-me no metrô com a promessa de que, se eu a seguisse, ela me levaria ao êxtase. Segui-a. Fomos até um lugar bonito; mas, quando entramos, era um calabouço, um calabouço no qual já estive. Muitas pessoas, amigos inclusive, gemiam lá dentro. Saí correndo e peguei um ônibus. Sentei num banco bem à frente de um casal mais velho de cabelos bem pretos, magros, pobres, os dentes enferrujados. Eles carregavam um recém-nascido lindo com os cabelos pretos e fartos também. Eu estava angustiado, mas o homem baixinho começou a cantar essa canção, sunshine on my shoulders... Depois se levantou e continuou cantando. Todos os que estávamos ali cantamos também e a angústia que eu trazia cedeu. Acordei com o sol.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

SERENIDADE-SEMENTE

Hoje eu me sentei em silêncio
E saí para passear
Encarei o abismo,
Construí canoa, enfrentei o rio, desaguei no mar.
E, no final,
Voltei e me sentei outra vez dentro de mim mesmo
Feito semente no fruto.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A RAINHA QUE À LUCIDEZ ESCONDEU

O professor de matemática
            A loucura irrompe num momento: último grão de areia da ampulheta, leite que ferve, vidro que estilhaça, vulcão em erupção. Mas, assim como o momento em que o magma jorra da cratera é o resultado de longos e contínuos movimentos subterrâneos os quais passaram despercebidos, o surto é o resultado de um longo e contínuo processo de forças que se movimentavam em silêncio nos porões e pântanos do ser.
            O fato é que ninguém percebeu quando o professor de matemática começou a perder o juízo. Houve, desde o princípio, pequenos sinais, mas quem estava lá para notá-los? O outro, enquanto funciona, é invisível; um adereço, uma pequena engrenagem do relógio. Quem se importava que o professor, logo que se casou, escreveu no pé de manga o nome dos recém-casados? E, no entanto, é aí que está a vida. Quem se importava se ele, o professor, quando era criança juntava tubos velhos de televisão, restos de rádios valvulados, pilhas usadas... tudo com a intenção de construir um foguete e fugir para a lua? Aí, o irrepetível; aí, a vida. O que importa não tem qualquer valor... mas, voltando aos sinais da loucura, no princípio, eles eram mesmo imperceptíveis. Quem é que nota se um professor se esquecia de tirar o avental quando saía do trabalho para almoçar ou tomar café? Com o tempo, porque vieram as filhas e a esposa ganhava tão mal quanto ele, uma vez que também era professora, o professor de matemática acumulou muito trabalho com o intuito de conseguir uma renda extra e sempre levava alguma coisa para fazer em casa depois do expediente, nos feriados e finais de semana.
            Quem poderia desconfiar que o excesso de trabalho escondia perturbações mais profundas? Paulatinamente, entretanto, os sintomas da desorganização mental foram aumentando. Se a mente do professor de matemática fosse uma casa, qualquer visitante, nem precisaria ser psicólogo ou psiquiatra, perceberia a mais completa confusão: o penico estaria sobre a mesa, as panelas no banheiro, os cobertores no lugar dos tapetes e a lata de lixo na despensa de alimentos. O problema, com pés de pomba, se tornava visível. O fato é que o mestre não sabia mais o lugar certo para colocar a máscara correta. Em casa comportava-se como professor; na escola, comportava-se como pai. Na igreja, durante a comunhão, abria a boca e apontava os dentes cariados do fundo como se estivesse diante de um dentista. Os papéis estavam trocados; o baralho, embaralhado. Desorganização, enfim.
            Ele, o professor de matemática, levou um diário para casa e todas as noites, antes do jantar, fazia a chamada. Mesmo as gatas de estimação eram obrigadas a responder com um miado que uma das gêmeas tratava de providenciar puxando o rabo do animal. Quando alguém da casa fazia algo que o agradava, o mestre, imediatamente, premiava com um ponto positivo; quando o contrário acontecia, um ponto era subtraído da nota do infrator. Se as crianças fizessem a lição de casa, tomassem banho e escovassem os dentes sem que ninguém precisasse mandar, um sinalzinho de mais era colocado na frente do nome; caso contrário, o sinal era de menos. Algo semelhante acontecia com as gatas se fizessem suas necessidades fisiológicas na caixinha de areia, e apenas na caixinha de areia... ganhavam um ponto positivo; caso contrário, ponto negativo nelas! Magí, a esposa, também não escapava; até na hora do sexo era avaliada em termos de pontos negativos e positivos. Nem mesmo para o amor o professor tirava o avental branco, sujo de giz coloridos perto dos bolsos. Só quando estava sozinho, perdido em devaneios, durante a noite, é que o mestre tirava todas as suas roupas, ficava só de cuecas, subia na sua mangueira, que nunca tinha dado uma manga sequer, e ficava contemplando o mistério... As estrelas.
            Se em casa o pai agia como mestre; na escola, o mestre agia como pai. Exigia que os alunos lhe pedissem a benção, beijassem a mão e tudo o mais, como um bom e ordeiro pai católico. Magí, a esposa, que trabalhava na mesma escola ficava triste e envergonhada com os sarcasmos e ironias e piadinhas que os outros mestres soltavam na sala do café e que os alunos disparavam pelos pátios, banheiros, quadras e corredores. No entanto, dentre todos os seus problemas, esse era o menor. Difícil mesmo era chegar em casa depois de um dia inteiro de trabalho e ser submetidas a chamadas orais, sabatinas, avaliações... perguntas e mais perguntas. Certa noite, à mesa do jantar, foi mandada à sala do diretor; mas, onde diabos seria a sala do diretor, ali, dentro de casa? Para sua sorte, a memória do marido, por esses tempos, andava curta e ele, assim como dava a ordem, dela se esquecia.
            Como em toda tragédia anunciada, a doença parecia só piorar. Com o tempo, afastaram o professor de matemática do trabalho; ao que ele reagiu instalando um quadro negro na sala de estar de sua própria casa. As filhas se rebelaram; as gatas se rebelaram; Magí, a esposa, se rebelou... de certo modo, toda a família enlouquecia junto com o pai. O professor de matemática se afundava e arrastava para as profundezas qualquer mão que se oferecesse para socorrê-lo.
            Quando anoitecia, entretanto, era tão bonito vê-lo sentado, sem camisa, num dos galhos do pé de manga... o rosto rejuvenescido, o sonho revigorado e um sorriso nos lábios: olhando as estrelas, a trilha infinita das galáxias...
            Então, um dia, o mestre passou dos limites. Disse que, por causa do seu comportamento insuportável, Magí, a esposa, seria transferida para outra unidade escolar. Redigiu um documento, carimbou, assinou e levou, ele mesmo, a mulher até a porta dos sogros. No documento, o professor de matemática ressaltava a baixa frequência da aluna, sua falta de atenção e de pontualidade.
            Amparada pelos pais, Magí foi se aconselhar com o vigário. Expôs toda a situação. Havia muito não era segredo para ninguém que o professor não andava batendo muito bem da cachola; havia ali algum pino solto, algum parafuso desencaixado, alguma porca perdida. O padre, entretanto, nem de longe imaginava o quanto a situação estava delicada.
            - Qualquer dia desses ele pode ficar violento e aí? O que será da minha filha? Das minhas netas? – disse a sogra.
            - A situação é deveras preocupante – respondeu o vigário.
            - Não é, padre?
            - Não há como convencê-lo a procurar ajuda?
            - E o senhor já ouviu falar de algum doido que reconheceu a própria loucura? Já viu algum maluco batendo na porta do hospício querendo entrar? Do jeito que está, ele representa perigo tanto para si mesmo quanto para a família.
            - Vocês já pensaram em alguma coisa? Têm uma ideia do que fazer?
            Pai, mãe e filha ficaram em silêncio; olhando uns para os outros como se estivessem com vergonha de dizer.
            - E então? Ninguém tem qualquer sugestão?
            Mais alguns instantes de silêncio e então foi Magí quem disse:
            - Nós havíamos pensado em uma internação, pelo menos até que ele estivesse um pouquinho melhor. Um tempo atrás, com muito esforço, consegui levá-lo a um psiquiatra que receitou quase meia dúzia de remédios diferentes... o problema é que ele se recusa a engolir qualquer comprimido. Acho que, numa clínica, pelo menos os enfermeiros e médicos garantiriam que ele fizesse uso adequado da medicação, nem que fosse por meio de injeções.
            - Mas vocês disseram que ele rejeita ajuda, como pensam em convencê-lo a se internar.
            Novo silêncio.
            Outra vez, foi a sogra quem falou:
            - Nós pensamos em uma internação compulsória.
            O vigário fez careta, sabia que o professor era um bom homem e que sofreria com aquilo; mas, que outra sugestão podia dar? Que outra solução havia?
            Coçou a cabeça. As pessoas querem fazer certas coisas, mas não querem as responsabilidades, precisam manter a consciência cristalina mesmo fazendo sacanagem; não era outra a função da igreja.
            - Se vocês acham que não há outra solução, que fazer, não é mesmo?
            O semblante dos familiares desanuviou-se, ficou menos tenso; a sogra chegou a sorrir. Dava para ver que estavam aliviados. Como que para celebrar, todos tomaram um cálice de vinho.

***
           
            Bem que o professor sentiu certo amargor no pudim, mas jamais desconfiaria que era por causa dos calmantes que Magí tinha colocado na receita. Ele, o professor de matemática, achou estranho quando até as meninas rejeitaram a sobremesa. Meia hora depois do jantar, sentiu o corpo amolecer, a boca seca, e pouco tempo depois, já estava roncando.
            Acordou com um marmanjo sentado sobre seu peito; os joelhos sobre seus braços... outro marmanjo, albino, segurando-lhe as pernas.
            - O senhor está sendo internado de modo involuntário, como é? Vai de boas, ou vai bancar o valentão?
            O professor tentou mexer os braços...
            - Vocês já me renderam... que mais posso fazer?
            Levantaram-se. Quando passaram pela porta da cozinha, o professor tentou reagir, correr, mas levou um mata-leão e, em poucos segundos, estava desacordado outra vez.
            Magí e as meninas choravam abraçadas. Seus lábios sussurraram uma única indagação:
            - Por quê?

A magia estilhaçada

            Onde foi parar, Magí, a magia do começo? De todos os inícios. Se lembra de quando viu o professor pela primeira vez e ambos ainda eram estudantes do segundo grau? Você se aproximou curiosa – batom nos lábios, chiclete na boca – menina descolada da turma dos descolados... e puxou conversa com o menino tímido que sempre tirava dez em tudo...
            - Onde você mora?
            - Naquela casa grande que tem um pé de manga enorme.
            ...
            - E o que você quer ser? O que quer fazer da vida?
            Sem titubear:
            - Astronauta e você?
            - Ainda não sei, não penso no futuro.
            E aí os dois atravessaram o parque correndo. Ele deixou os livros caírem. Como quase todo cara inteligente, era muito-meio desastrado.
            O frescor do começo, Magí, onde foi parar? A linguagem do entusiasmo... recorda aqueles primeiros encontros? O cinema, o parque, a matinê tocando Kid Abelha e nada, nada era chato. Você ficou admirada porque ele não fazia tipo, não ensaiava poses, não queria ser o que não era. Quem via o rosto adivinhava o coração. Mesmo assim, só para tentar impressionar você, tentou andar de skate, mas caiu assim que colocou o primeiro pé no shape. E, então, uma noite, ele disse que queria mostrar uma coisa. Subiram os dois na mangueira, você acendeu um cigarro e ele te mostrou o Mistério, comentou as estrelas. Depois disso, nunca mais te passou pela cabeça enfiar colheres nas veias outra vez e você se reconciliou com a fé dos seus pais. Viviam só ele e o pai, mas o pai também não duraria muito e, breve-breve, aquela seria sua própria casa. O amor aconteceu de forma engraçada, desastrada, feito palestrante que tropeça e cai antes de subir no palco... E veio a gravidez inesperada, mas querida: gêmeas. Os empecilhos de foder com um homem virgem. E veio o lar partilhado; mas também a morte do pai e o aborto espontâneo. Ambos já sabiam que não haveria espaço para astronautas naquela casa do subúrbio... e as faculdades, as mensalidades sempre atrasadas... macarrão instantâneo e salsicha... trabalhar de dia e estudar de noite nunca foi moleza... e veio outra gravidez e novo aborto... e ainda outra gravidez e outro aborto... as aulas como professores substitutos. Dúvidas, dívidas e carnês de mais de cem páginas: louças, roupas, fraldas, banheiros enguiçados, problemas na instalação elétrica, no encanamento... é preciso vigor pra sustentar o amor.
            Enfim, o silêncio e depois dele, feito Nosferatu, o delírio.
            Depois de mais de uma década de casamento, quando a Poesia tinha se perdido em meio às contas a pagar e notas fiscais para abater no imposto de renda, o menino apareceu e Magí não pôde resistir; ela era amante da magia e, com o tempo, o casamento tinha se tornado uma instituição burocrática. O professor sequer mencionava o fato de que um dia sonhara conquistar o espaço.
            Era aluno do terceiro ano do ensino médio. Tinha dezessete anos, cabelos grandes encaracolados, andava com roupas surradas, tênis sujos e rasgados; uma mochila em frangalhos. Começou a frequentar o curso de redação pelo qual a professora Magí era a responsável.
            - Sou poeta – disse – meu nome é Caetano.
            Com o tempo, Magí soube mais. Ele, o menino, frequentava passeatas e manifestações contra o presidente da República. Sabia fazer bombas caseiras. Toda vez que havia confusão numa dessas manifestações, Magí ficava em casa, com o coração na mão, acompanhando tudo pela televisão.
            Os versos não eram grande coisa, rimas óbvias, o desejo de encaixar a vida numa métrica que ele não aprendera a dominar: escrevia sonetos quase decassílabos, de pés-quebrados. Mas havia outra poesia no menino: ele fazia  bonecas de pano com as próprias mãos e, toda vez que ia visitar a avó num asilo, levava uma bonequinha nova, com vestido de cor diferente. Um dia colocou uma boneca na mesa da professora depois da aula e disse:
            - Toma, fiz pra você. Já que nunca consigo escrever uma redação decente, quis te dar uma coisa que faço bem. Você sempre me dá nota ruim e rabisca meus textos inteiros
            - É que você tem boas ideias, excelente pra dizer a verdade, mas não consegue desenvolvê-las. Pula de um pensamento ao outro sem desenvolvimento.
            - É por isso que eu quero ser poeta e não um jornalista, um antropólogo, um acadêmico...
            - Ninguém vive de poesia, todo mundo precisa ter um plano B para se sustentar.
            - Mas eu tenho um plano B.
            - E qual é?
            - A REVOLUÇÃO.
            Era um sonhador e, por isso, perigoso. Qualquer cão policial o farejaria de longe. E Magí não resistiu, e se entregou, e não quis mais abrir mão do menino. O diabo não são os outros. O diabo são as circunstâncias. Alguns anos atrás, quando a alma do professor ainda não tinha atravessado para a outra margem, o menino não teria a menor chance. Talvez surgisse carinho, mas um carinho diferente, como aquele que a mãe sente pelo filho meio rebelde que, mesmo aos quarenta anos, não toma jeito na vida. Ninguém tem culpa, lágrimas e risos são trabalhos do relógio, desígnios do tempo: um par de pés no riacho.

Florescer na cova dos abutres

            E, por falar em astronauta, quando o professor acordou na Comunidade Terapêutica Bonsai, sentiu-se como se tivesse sido abduzido... como se estivesse em outro planeta. A Comunidade “atendia” tanto pacientes com histórico de dependência química, quanto de outras doenças mentais. Havia seis pacientes em cada quarto, divididos em três beliches. Durante o dia, os prisioneiros ficavam trancafiados no refeitório; quando anoitecia, a tranca era nos quartos. Por vários dias, o professor ficou sentado numa cadeira à beira da vidraça. Lá fora estava a Serra do Mar, a mata guapa e, depois dela, o oceano. Todas as manhãs, uma família de macacos passava pela frente da vidraça em busca de alimento. Havia também tucanos, coleirinhas, canários da terra, do reino, abutres. O professor de matemática se sentia tal qual aqueles pássaros engaiolados, cujos donos os dependuram nas árvores para que cantem mais sofridos, observando os outros bichos soltos na natureza... pode o sofrimento nos fazer mais belos? Porque o professor estava num momento da vida em que não sabia para onde andar, como seguir em frente, seus pés incharam. Toda doença é psicossomática. Ele requisitou a um dos monitores seus diários; ou, ao menos, uma caneta e um pedaço de papel. Tudo lhe foi negado. Como a situação era de fato insuportável, o professor caminhou de costas até o delírio.
            - Olha lá, o tiozinho tá doidão!
            E riram.
            Há quem ria nos momentos de dor e desespero só para disfarçar as lágrimas, a dor funda. O dia inteiro, os internos andavam em círculos. De certo modo, o professor considerava aquela escola muito estranha, o recreio não terminava nunca!
            Protestou.
            Exigiu falar com o diretor.
            Recebeu meia dúzia de tapas nas orelhas e novo mata-leão. Dentro da Comunidade Terapêutica Bonsai, reinava uma ordem diferente. Os abutres faziam suas próprias leis. Leis draconianas.
            Mesmo mergulhado no delírio, o professor de matemática percebeu que precisaria se adaptar para sobreviver. Era um negócio muito lucrativo, a tal Comunidade Terapêutica. Os familiares dos internos pagavam uma nota para mantê-los por lá. Além disso, toda a alimentação era proveniente de doações, uma vez que a Bonsai se dizia uma entidade filantrópica. Não havia funcionários, pois os próprios internos faziam todo o trabalho; desde a vigilância – para obter alguns privilégios, os mais puxa-sacos – até a limpeza. Os trabalhos forçados tinham uma nomenclatura bonita: laborterapia, e os pacientes, por vezes, saíam no tapa para ter o privilégio de ter alguma coisa para fazer e poder, assim, sair um pouco do refeitório. Porque tinha se tornado um dos internos considerados tranquilo, o professor era quase sempre levado para passar o rastelo na chácara que era grande e bonita para impressionar os familiares. A regra era: agradar as famílias e explorar os pacientes. Ninguém quer ter problemas aguardando em casa quando chega do trabalho. As pessoas pagam para não tê-los, os problemas, para mandá-los para bem longe. E tem mais, ninguém acredita no que diz um drogado ou um doido.
            Demorou mais de um mês até que o professor recebesse a primeira visita. Magí estava estranha, parecia se esquivar dele... sobretudo o olhar: ela evitava olhar nos olhos dele.
            Foi bom matar a saudade das filhas; mas, depois que a visita acaba, as paredes de um cárcere se tornam ainda mais rígidas e a solidão mais firme. E a mulher que o evitou a todo custo? A alma do professor intercalava delírios a momentos de extrema lucidez: feridas por toda a pele, bolhas, pus. Deitado no beliche, durante a noite, olhos abertos na escuridão, o professor se lembrou dos primeiros tempos, quando só olhar de admiração de Magí na direção dele já bastava. Nada mais era necessário: nada. Ele não precisava ser famoso, não precisava ser importante, não havia necessidade de ser jogador de futebol, ator, celebridade, sequer astronauta. Para ela, bastava ele existir e o mundo estava completo. Para ele, ela era o mundo. Sob quantas toneladas de entulhos e escombros o amor ainda é capaz de respirar? Num terremoto, no México, uma criança foi retirada com vida dos escombros depois de passar mais de uma semana sob as pedras.
Tempo.
Tempo.
Tempo.
T
E
M
P
O
a conta gotas, clepsidra... poetas portugueses em Macau. Às vezes é mais difícil preencher um dia que uma vida. Cinco minutos não passam; mas, quando a gente se dá conta, passaram-se cinquenta anos. Tentar, então, ensinar alguma coisa aos outros condenados... porque navio boia, porque prego afunda... mas, que maluco admitia aprender alguma coisa? Um dos perturbados era pastor, gostava de entoar hinos, imitar Elvis Presley e ler a bíblia em voz alta. Uma vez, ele, o pastor, resolveu debater sobre Deus com outro interno que, quando sentiu que estava em desvantagem no debate, atribuiu a si mesmo o título de pai de Deus.
Tempo.
Tempo.
Tempo.
            Novas visitas. Vieram os pais de Magí e as crianças. Depois vieram os sogros de novo e as filhas outra vez e Magí não veio. Quando você foi abandonado no deserto, percebeu como os caramujos sem casca secavam ao sol? Numa das últimas visitas, foi o sogro quem falou:
            - Preciso dizer uma coisa.
            O professor de matemática já estava bem. Calculava o que devia fazer quando estivesse no trabalho e quando em casa. Saberia, sim, como se comportar; distinguir a diferença quando fosse à padaria ou à igreja. Permaneceu em silêncio, esperando o sogro falar...
            - É difícil; mas, acho que, nessas situações, o melhor a fazer é ser franco, direto. Seguinte, minha filha quer o divórcio.
            Os visitantes foram embora. O professor afagou um gato vagabundo. A solidão se instalou como nunca antes. Então era isso? Toda vida como processo de demolição? Consequência imediata de abalos sísmicos contínuos? Se nada é certo, precisamos aprender a caminhar no inefável. Adeus estrada de tijolos amarelos. No fundo, ele, o mestre, já sabia. Algo cambiava em seu interior. Nessa noite, teve febre, urinou sangue, seus órgãos se dissolviam por trás da pele... adeus estrada de tijolos amarelos... Lá fora, na natureza, a dor do professor de matemática fez chover por dias e dias seguidos.
            Aí...
            Sem qualquer anúncio, o sol estava lá de novo, numa certa manhã; como numa canção do George Harrison. Aos poucos, devagar, o mestre começou a se levantar... pôs um pé no chão; depois outro; reparou, mas não fincou atenção ao seu corpo esburacado... escorou-se na parede até chegar ao banheiro... lavou o rosto... escovou os dentes... voltou... abriu a porta e olhou a manhã... ele já não existia e, por isso, o mundo era maravilhoso, sagrado: urubus, anus, macacos, borboletas, tucanos, árvores altas chacoalhadas pelo vento... Deus se dissolvia na sua própria criação, como um escritor que, aos poucos, se transforma no próprio livro e se dissolve dentro dele.
            Do outro lado da cidade, enquanto bebia café e trocava mensagens no celular com o menino Caetano, Magí abriu os olhos e viu que o pé de manga do marido, que nunca tinha dado uma manga sequer, estava coberto de flores. Quando novembro chegou, a mangueira estava carregada de frutos vistosos, rosados, imensos, lustrosos. Agora, a chama queimava em outro lugar; mas quem poderia saber onde?
            Um motorista qualquer ajeitou o retrovisor.