domingo, 18 de fevereiro de 2018

SERENIDADE-SEMENTE

Hoje eu me sentei em silêncio
E saí para passear
Encarei o abismo,
Construí canoa, enfrentei o rio, desaguei no mar.
E, no final,
Voltei e me sentei outra vez dentro de mim mesmo
Feito semente no fruto.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A RAINHA QUE À LUCIDEZ ESCONDEU

O professor de matemática
            A loucura irrompe num momento: último grão de areia da ampulheta, leite que ferve, vidro que estilhaça, vulcão em erupção. Mas, assim como o momento em que o magma jorra da cratera é o resultado de longos e contínuos movimentos subterrâneos os quais passaram despercebidos, o surto é o resultado de um longo e contínuo processo de forças que se movimentavam em silêncio nos porões e pântanos do ser.
            O fato é que ninguém percebeu quando o professor de matemática começou a perder o juízo. Houve, desde o princípio, pequenos sinais, mas quem estava lá para notá-los? O outro, enquanto funciona, é invisível; um adereço, uma pequena engrenagem do relógio. Quem se importava que o professor, logo que se casou, escreveu no pé de manga o nome dos recém-casados? E, no entanto, é aí que está a vida. Quem se importava se ele, o professor, quando era criança juntava tubos velhos de televisão, restos de rádios valvulados, pilhas usadas... tudo com a intenção de construir um foguete e fugir para a lua? Aí, o irrepetível; aí, a vida. O que importa não tem qualquer valor... mas, voltando aos sinais da loucura, no princípio, eles eram mesmo imperceptíveis. Quem é que nota se um professor se esquecia de tirar o avental quando saía do trabalho para almoçar ou tomar café? Com o tempo, porque vieram as filhas e a esposa ganhava tão mal quanto ele, uma vez que também era professora, o professor de matemática acumulou muito trabalho com o intuito de conseguir uma renda extra e sempre levava alguma coisa para fazer em casa depois do expediente, nos feriados e finais de semana.
            Quem poderia desconfiar que o excesso de trabalho escondia perturbações mais profundas? Paulatinamente, entretanto, os sintomas da desorganização mental foram aumentando. Se a mente do professor de matemática fosse uma casa, qualquer visitante, nem precisaria ser psicólogo ou psiquiatra, perceberia a mais completa confusão: o penico estaria sobre a mesa, as panelas no banheiro, os cobertores no lugar dos tapetes e a lata de lixo na despensa de alimentos. O problema, com pés de pomba, se tornava visível. O fato é que o mestre não sabia mais o lugar certo para colocar a máscara correta. Em casa comportava-se como professor; na escola, comportava-se como pai. Na igreja, durante a comunhão, abria a boca e apontava os dentes cariados do fundo como se estivesse diante de um dentista. Os papéis estavam trocados; o baralho, embaralhado. Desorganização, enfim.
            Ele, o professor de matemática, levou um diário para casa e todas as noites, antes do jantar, fazia a chamada. Mesmo as gatas de estimação eram obrigadas a responder com um miado que uma das gêmeas tratava de providenciar puxando o rabo do animal. Quando alguém da casa fazia algo que o agradava, o mestre, imediatamente, premiava com um ponto positivo; quando o contrário acontecia, um ponto era subtraído da nota do infrator. Se as crianças fizessem a lição de casa, tomassem banho e escovassem os dentes sem que ninguém precisasse mandar, um sinalzinho de mais era colocado na frente do nome; caso contrário, o sinal era de menos. Algo semelhante acontecia com as gatas se fizessem suas necessidades fisiológicas na caixinha de areia, e apenas na caixinha de areia... ganhavam um ponto positivo; caso contrário, ponto negativo nelas! Magí, a esposa, também não escapava; até na hora do sexo era avaliada em termos de pontos negativos e positivos. Nem mesmo para o amor o professor tirava o avental branco, sujo de giz coloridos perto dos bolsos. Só quando estava sozinho, perdido em devaneios, durante a noite, é que o mestre tirava todas as suas roupas, ficava só de cuecas, subia na sua mangueira, que nunca tinha dado uma manga sequer, e ficava contemplando o mistério... As estrelas.
            Se em casa o pai agia como mestre; na escola, o mestre agia como pai. Exigia que os alunos lhe pedissem a benção, beijassem a mão e tudo o mais, como um bom e ordeiro pai católico. Magí, a esposa, que trabalhava na mesma escola ficava triste e envergonhada com os sarcasmos e ironias e piadinhas que os outros mestres soltavam na sala do café e que os alunos disparavam pelos pátios, banheiros, quadras e corredores. No entanto, dentre todos os seus problemas, esse era o menor. Difícil mesmo era chegar em casa depois de um dia inteiro de trabalho e ser submetidas a chamadas orais, sabatinas, avaliações... perguntas e mais perguntas. Certa noite, à mesa do jantar, foi mandada à sala do diretor; mas, onde diabos seria a sala do diretor, ali, dentro de casa? Para sua sorte, a memória do marido, por esses tempos, andava curta e ele, assim como dava a ordem, dela se esquecia.
            Como em toda tragédia anunciada, a doença parecia só piorar. Com o tempo, afastaram o professor de matemática do trabalho; ao que ele reagiu instalando um quadro negro na sala de estar de sua própria casa. As filhas se rebelaram; as gatas se rebelaram; Magí, a esposa, se rebelou... de certo modo, toda a família enlouquecia junto com o pai. O professor de matemática se afundava e arrastava para as profundezas qualquer mão que se oferecesse para socorrê-lo.
            Quando anoitecia, entretanto, era tão bonito vê-lo sentado, sem camisa, num dos galhos do pé de manga... o rosto rejuvenescido, o sonho revigorado e um sorriso nos lábios: olhando as estrelas, a trilha infinita das galáxias...
            Então, um dia, o mestre passou dos limites. Disse que, por causa do seu comportamento insuportável, Magí, a esposa, seria transferida para outra unidade escolar. Redigiu um documento, carimbou, assinou e levou, ele mesmo, a mulher até a porta dos sogros. No documento, o professor de matemática ressaltava a baixa frequência da aluna, sua falta de atenção e de pontualidade.
            Amparada pelos pais, Magí foi se aconselhar com o vigário. Expôs toda a situação. Havia muito não era segredo para ninguém que o professor não andava batendo muito bem da cachola; havia ali algum pino solto, algum parafuso desencaixado, alguma porca perdida. O padre, entretanto, nem de longe imaginava o quanto a situação estava delicada.
            - Qualquer dia desses ele pode ficar violento e aí? O que será da minha filha? Das minhas netas? – disse a sogra.
            - A situação é deveras preocupante – respondeu o vigário.
            - Não é, padre?
            - Não há como convencê-lo a procurar ajuda?
            - E o senhor já ouviu falar de algum doido que reconheceu a própria loucura? Já viu algum maluco batendo na porta do hospício querendo entrar? Do jeito que está, ele representa perigo tanto para si mesmo quanto para a família.
            - Vocês já pensaram em alguma coisa? Têm uma ideia do que fazer?
            Pai, mãe e filha ficaram em silêncio; olhando uns para os outros como se estivessem com vergonha de dizer.
            - E então? Ninguém tem qualquer sugestão?
            Mais alguns instantes de silêncio e então foi Magí quem disse:
            - Nós havíamos pensado em uma internação, pelo menos até que ele estivesse um pouquinho melhor. Um tempo atrás, com muito esforço, consegui levá-lo a um psiquiatra que receitou quase meia dúzia de remédios diferentes... o problema é que ele se recusa a engolir qualquer comprimido. Acho que, numa clínica, pelo menos os enfermeiros e médicos garantiriam que ele fizesse uso adequado da medicação, nem que fosse por meio de injeções.
            - Mas vocês disseram que ele rejeita ajuda, como pensam em convencê-lo a se internar.
            Novo silêncio.
            Outra vez, foi a sogra quem falou:
            - Nós pensamos em uma internação compulsória.
            O vigário fez careta, sabia que o professor era um bom homem e que sofreria com aquilo; mas, que outra sugestão podia dar? Que outra solução havia?
            Coçou a cabeça. As pessoas querem fazer certas coisas, mas não querem as responsabilidades, precisam manter a consciência cristalina mesmo fazendo sacanagem; não era outra a função da igreja.
            - Se vocês acham que não há outra solução, que fazer, não é mesmo?
            O semblante dos familiares desanuviou-se, ficou menos tenso; a sogra chegou a sorrir. Dava para ver que estavam aliviados. Como que para celebrar, todos tomaram um cálice de vinho.

***
           
            Bem que o professor sentiu certo amargor no pudim, mas jamais desconfiaria que era por causa dos calmantes que Magí tinha colocado na receita. Ele, o professor de matemática, achou estranho quando até as meninas rejeitaram a sobremesa. Meia hora depois do jantar, sentiu o corpo amolecer, a boca seca, e pouco tempo depois, já estava roncando.
            Acordou com um marmanjo sentado sobre seu peito; os joelhos sobre seus braços... outro marmanjo, albino, segurando-lhe as pernas.
            - O senhor está sendo internado de modo involuntário, como é? Vai de boas, ou vai bancar o valentão?
            O professor tentou mexer os braços...
            - Vocês já me renderam... que mais posso fazer?
            Levantaram-se. Quando passaram pela porta da cozinha, o professor tentou reagir, correr, mas levou um mata-leão e, em poucos segundos, estava desacordado outra vez.
            Magí e as meninas choravam abraçadas. Seus lábios sussurraram uma única indagação:
            - Por quê?

A magia estilhaçada

            Onde foi parar, Magí, a magia do começo? De todos os inícios. Se lembra de quando viu o professor pela primeira vez e ambos ainda eram estudantes do segundo grau? Você se aproximou curiosa – batom nos lábios, chiclete na boca – menina descolada da turma dos descolados... e puxou conversa com o menino tímido que sempre tirava dez em tudo...
            - Onde você mora?
            - Naquela casa grande que tem um pé de manga enorme.
            ...
            - E o que você quer ser? O que quer fazer da vida?
            Sem titubear:
            - Astronauta e você?
            - Ainda não sei, não penso no futuro.
            E aí os dois atravessaram o parque correndo. Ele deixou os livros caírem. Como quase todo cara inteligente, era muito-meio desastrado.
            O frescor do começo, Magí, onde foi parar? A linguagem do entusiasmo... recorda aqueles primeiros encontros? O cinema, o parque, a matinê tocando Kid Abelha e nada, nada era chato. Você ficou admirada porque ele não fazia tipo, não ensaiava poses, não queria ser o que não era. Quem via o rosto adivinhava o coração. Mesmo assim, só para tentar impressionar você, tentou andar de skate, mas caiu assim que colocou o primeiro pé no shape. E, então, uma noite, ele disse que queria mostrar uma coisa. Subiram os dois na mangueira, você acendeu um cigarro e ele te mostrou o Mistério, comentou as estrelas. Depois disso, nunca mais te passou pela cabeça enfiar colheres nas veias outra vez e você se reconciliou com a fé dos seus pais. Viviam só ele e o pai, mas o pai também não duraria muito e, breve-breve, aquela seria sua própria casa. O amor aconteceu de forma engraçada, desastrada, feito palestrante que tropeça e cai antes de subir no palco... E veio a gravidez inesperada, mas querida: gêmeas. Os empecilhos de foder com um homem virgem. E veio o lar partilhado; mas também a morte do pai e o aborto espontâneo. Ambos já sabiam que não haveria espaço para astronautas naquela casa do subúrbio... e as faculdades, as mensalidades sempre atrasadas... macarrão instantâneo e salsicha... trabalhar de dia e estudar de noite nunca foi moleza... e veio outra gravidez e novo aborto... e ainda outra gravidez e outro aborto... as aulas como professores substitutos. Dúvidas, dívidas e carnês de mais de cem páginas: louças, roupas, fraldas, banheiros enguiçados, problemas na instalação elétrica, no encanamento... é preciso vigor pra sustentar o amor.
            Enfim, o silêncio e depois dele, feito Nosferatu, o delírio.
            Depois de mais de uma década de casamento, quando a Poesia tinha se perdido em meio às contas a pagar e notas fiscais para abater no imposto de renda, o menino apareceu e Magí não pôde resistir; ela era amante da magia e, com o tempo, o casamento tinha se tornado uma instituição burocrática. O professor sequer mencionava o fato de que um dia sonhara conquistar o espaço.
            Era aluno do terceiro ano do ensino médio. Tinha dezessete anos, cabelos grandes encaracolados, andava com roupas surradas, tênis sujos e rasgados; uma mochila em frangalhos. Começou a frequentar o curso de redação pelo qual a professora Magí era a responsável.
            - Sou poeta – disse – meu nome é Caetano.
            Com o tempo, Magí soube mais. Ele, o menino, frequentava passeatas e manifestações contra o presidente da República. Sabia fazer bombas caseiras. Toda vez que havia confusão numa dessas manifestações, Magí ficava em casa, com o coração na mão, acompanhando tudo pela televisão.
            Os versos não eram grande coisa, rimas óbvias, o desejo de encaixar a vida numa métrica que ele não aprendera a dominar: escrevia sonetos quase decassílabos, de pés-quebrados. Mas havia outra poesia no menino: ele fazia  bonecas de pano com as próprias mãos e, toda vez que ia visitar a avó num asilo, levava uma bonequinha nova, com vestido de cor diferente. Um dia colocou uma boneca na mesa da professora depois da aula e disse:
            - Toma, fiz pra você. Já que nunca consigo escrever uma redação decente, quis te dar uma coisa que faço bem. Você sempre me dá nota ruim e rabisca meus textos inteiros
            - É que você tem boas ideias, excelente pra dizer a verdade, mas não consegue desenvolvê-las. Pula de um pensamento ao outro sem desenvolvimento.
            - É por isso que eu quero ser poeta e não um jornalista, um antropólogo, um acadêmico...
            - Ninguém vive de poesia, todo mundo precisa ter um plano B para se sustentar.
            - Mas eu tenho um plano B.
            - E qual é?
            - A REVOLUÇÃO.
            Era um sonhador e, por isso, perigoso. Qualquer cão policial o farejaria de longe. E Magí não resistiu, e se entregou, e não quis mais abrir mão do menino. O diabo não são os outros. O diabo são as circunstâncias. Alguns anos atrás, quando a alma do professor ainda não tinha atravessado para a outra margem, o menino não teria a menor chance. Talvez surgisse carinho, mas um carinho diferente, como aquele que a mãe sente pelo filho meio rebelde que, mesmo aos quarenta anos, não toma jeito na vida. Ninguém tem culpa, lágrimas e risos são trabalhos do relógio, desígnios do tempo: um par de pés no riacho.

Florescer na cova dos abutres

            E, por falar em astronauta, quando o professor acordou na Comunidade Terapêutica Bonsai, sentiu-se como se tivesse sido abduzido... como se estivesse em outro planeta. A Comunidade “atendia” tanto pacientes com histórico de dependência química, quanto de outras doenças mentais. Havia seis pacientes em cada quarto, divididos em três beliches. Durante o dia, os prisioneiros ficavam trancafiados no refeitório; quando anoitecia, a tranca era nos quartos. Por vários dias, o professor ficou sentado numa cadeira à beira da vidraça. Lá fora estava a Serra do Mar, a mata guapa e, depois dela, o oceano. Todas as manhãs, uma família de macacos passava pela frente da vidraça em busca de alimento. Havia também tucanos, coleirinhas, canários da terra, do reino, abutres. O professor de matemática se sentia tal qual aqueles pássaros engaiolados, cujos donos os dependuram nas árvores para que cantem mais sofridos, observando os outros bichos soltos na natureza... pode o sofrimento nos fazer mais belos? Porque o professor estava num momento da vida em que não sabia para onde andar, como seguir em frente, seus pés incharam. Toda doença é psicossomática. Ele requisitou a um dos monitores seus diários; ou, ao menos, uma caneta e um pedaço de papel. Tudo lhe foi negado. Como a situação era de fato insuportável, o professor caminhou de costas até o delírio.
            - Olha lá, o tiozinho tá doidão!
            E riram.
            Há quem ria nos momentos de dor e desespero só para disfarçar as lágrimas, a dor funda. O dia inteiro, os internos andavam em círculos. De certo modo, o professor considerava aquela escola muito estranha, o recreio não terminava nunca!
            Protestou.
            Exigiu falar com o diretor.
            Recebeu meia dúzia de tapas nas orelhas e novo mata-leão. Dentro da Comunidade Terapêutica Bonsai, reinava uma ordem diferente. Os abutres faziam suas próprias leis. Leis draconianas.
            Mesmo mergulhado no delírio, o professor de matemática percebeu que precisaria se adaptar para sobreviver. Era um negócio muito lucrativo, a tal Comunidade Terapêutica. Os familiares dos internos pagavam uma nota para mantê-los por lá. Além disso, toda a alimentação era proveniente de doações, uma vez que a Bonsai se dizia uma entidade filantrópica. Não havia funcionários, pois os próprios internos faziam todo o trabalho; desde a vigilância – para obter alguns privilégios, os mais puxa-sacos – até a limpeza. Os trabalhos forçados tinham uma nomenclatura bonita: laborterapia, e os pacientes, por vezes, saíam no tapa para ter o privilégio de ter alguma coisa para fazer e poder, assim, sair um pouco do refeitório. Porque tinha se tornado um dos internos considerados tranquilo, o professor era quase sempre levado para passar o rastelo na chácara que era grande e bonita para impressionar os familiares. A regra era: agradar as famílias e explorar os pacientes. Ninguém quer ter problemas aguardando em casa quando chega do trabalho. As pessoas pagam para não tê-los, os problemas, para mandá-los para bem longe. E tem mais, ninguém acredita no que diz um drogado ou um doido.
            Demorou mais de um mês até que o professor recebesse a primeira visita. Magí estava estranha, parecia se esquivar dele... sobretudo o olhar: ela evitava olhar nos olhos dele.
            Foi bom matar a saudade das filhas; mas, depois que a visita acaba, as paredes de um cárcere se tornam ainda mais rígidas e a solidão mais firme. E a mulher que o evitou a todo custo? A alma do professor intercalava delírios a momentos de extrema lucidez: feridas por toda a pele, bolhas, pus. Deitado no beliche, durante a noite, olhos abertos na escuridão, o professor se lembrou dos primeiros tempos, quando só olhar de admiração de Magí na direção dele já bastava. Nada mais era necessário: nada. Ele não precisava ser famoso, não precisava ser importante, não havia necessidade de ser jogador de futebol, ator, celebridade, sequer astronauta. Para ela, bastava ele existir e o mundo estava completo. Para ele, ela era o mundo. Sob quantas toneladas de entulhos e escombros o amor ainda é capaz de respirar? Num terremoto, no México, uma criança foi retirada com vida dos escombros depois de passar mais de uma semana sob as pedras.
Tempo.
Tempo.
Tempo.
T
E
M
P
O
a conta gotas, clepsidra... poetas portugueses em Macau. Às vezes é mais difícil preencher um dia que uma vida. Cinco minutos não passam; mas, quando a gente se dá conta, passaram-se cinquenta anos. Tentar, então, ensinar alguma coisa aos outros condenados... porque navio boia, porque prego afunda... mas, que maluco admitia aprender alguma coisa? Um dos perturbados era pastor, gostava de entoar hinos, imitar Elvis Presley e ler a bíblia em voz alta. Uma vez, ele, o pastor, resolveu debater sobre Deus com outro interno que, quando sentiu que estava em desvantagem no debate, atribuiu a si mesmo o título de pai de Deus.
Tempo.
Tempo.
Tempo.
            Novas visitas. Vieram os pais de Magí e as crianças. Depois vieram os sogros de novo e as filhas outra vez e Magí não veio. Quando você foi abandonado no deserto, percebeu como os caramujos sem casca secavam ao sol? Numa das últimas visitas, foi o sogro quem falou:
            - Preciso dizer uma coisa.
            O professor de matemática já estava bem. Calculava o que devia fazer quando estivesse no trabalho e quando em casa. Saberia, sim, como se comportar; distinguir a diferença quando fosse à padaria ou à igreja. Permaneceu em silêncio, esperando o sogro falar...
            - É difícil; mas, acho que, nessas situações, o melhor a fazer é ser franco, direto. Seguinte, minha filha quer o divórcio.
            Os visitantes foram embora. O professor afagou um gato vagabundo. A solidão se instalou como nunca antes. Então era isso? Toda vida como processo de demolição? Consequência imediata de abalos sísmicos contínuos? Se nada é certo, precisamos aprender a caminhar no inefável. Adeus estrada de tijolos amarelos. No fundo, ele, o mestre, já sabia. Algo cambiava em seu interior. Nessa noite, teve febre, urinou sangue, seus órgãos se dissolviam por trás da pele... adeus estrada de tijolos amarelos... Lá fora, na natureza, a dor do professor de matemática fez chover por dias e dias seguidos.
            Aí...
            Sem qualquer anúncio, o sol estava lá de novo, numa certa manhã; como numa canção do George Harrison. Aos poucos, devagar, o mestre começou a se levantar... pôs um pé no chão; depois outro; reparou, mas não fincou atenção ao seu corpo esburacado... escorou-se na parede até chegar ao banheiro... lavou o rosto... escovou os dentes... voltou... abriu a porta e olhou a manhã... ele já não existia e, por isso, o mundo era maravilhoso, sagrado: urubus, anus, macacos, borboletas, tucanos, árvores altas chacoalhadas pelo vento... Deus se dissolvia na sua própria criação, como um escritor que, aos poucos, se transforma no próprio livro e se dissolve dentro dele.
            Do outro lado da cidade, enquanto bebia café e trocava mensagens no celular com o menino Caetano, Magí abriu os olhos e viu que o pé de manga do marido, que nunca tinha dado uma manga sequer, estava coberto de flores. Quando novembro chegou, a mangueira estava carregada de frutos vistosos, rosados, imensos, lustrosos. Agora, a chama queimava em outro lugar; mas quem poderia saber onde?
            Um motorista qualquer ajeitou o retrovisor.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A alma estendida na varanda

Lá vou eu pela vida
A alma estendida na varanda feito camiseta velha
Abrindo trilhas, descobrindo clareiras
Dizendo não ao caminho excessivamente pisado
Sofrendo as consequências de arrancar a mão autoritária do meu ombro
Lá vou eu pela vida
confuso confesso: rebelde
Encantado pelo milagre,
Lá onde o milagre acontece
e a gente não vê 
Lá vou eu pelo caminho
A carne cheia de estilhaços
A alma infestada de bolhas feito ovo na frigideira
O coração em carne viva
Perguntando pelo mistério do Ser
E admirado com aqueles que sabem funcionar
Lá vou eu,
As certezas em frangalhos
As promessas frustradas
A coragem costurada, remendada por retalhos coloridos
Eu vou menino
Inventando esperança onde grassa desilusão
Vou de conga ou kichute
Recolhendo força dos invisíveis
e cantando com eles:
Todo menino é um rei!


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

COMO UM MENINO FRENTE A DEUS

O TOURO EM ERUPÇÃO

Um touro vendado se bate contra as extremidades do túnel, tentando encontrar o caminho que leva à arena. É um touro preto. Ao redor, os homens fustigam-no, batem-lhe com a mão no traseiro. “Eia, novilho doido, eia!” Viver é encontrar uma trilha, mesmo que de pedras, por onde a gente possa caminhar. Algumas pessoas encontram sua própria trilha, aquela que lhes é - e só a elas - destinada, quando mal aprenderam a andar, quando ainda engatinham; outras pessoas passam a vida toda batendo a cabeça, procurando uma vereda onde possam ser, onde seus pés encontrem o sentido de existir. “Dê-me um cantinho de mundo onde eu caiba e eu serei serenidade” – diz o touro por meio de sua alma taurina. Acossado, no entanto, o touro é abismal, fere quem estiver por perto; não distingue sequer a mão que o alimenta. Eia, novilho, eia natureza, eia! Há uma menina branca, sempre há. A fragilidade é sua força. Ela acaricia o touro enquanto os outros cravam bandeirolas nas costas da fera. Três filhos, três filhas; o pai cego fumando cachimbo. Caminho onde a gente possa ser. Uma beiradinha de mundo e de língua onde caiba um touro, onde um touro encontre morada e frescor. A carne é para os vergões e o chicote. A carne é para a fúria! Alimento, amizade, alma, amor, amanhã. Todas as pistas começam com A, mas a solidão é cheia de curvas... E gritos. Havia para a menina toda uma vida de vitórias: quadros revolucionários em estado de transparência, esculturas inovadoras - sempre de touros - ocultas na pedra e no bronze; vocação para a Arte é isso, mas ela se esqueceu de nascer e a neblina cobriu o caminho que lhe era destinado. O outro do mundo habita o silêncio... O caminho não existe sem aquele que caminha e o touro é toda a violência que o couro e a carne podem conter. A vida habita a solidez; o mais é hipótese, possibilidade, cavalos marinhos no sertão; todo um mundo que poderia ser, mas não é: aborto... A casa abortada.
                MAS VOU CONTAR ESTA HISTÓRIA PARA PROVAR QUE SOU SUBLIME.
                A menina diz:
                - Quando eu me despir de todas as cascas serei amor.
                O touro não é só o touro, o touro é o touro mais a menina e mais a casa. Nada é isolado. Tudo o que é, é dentro de um mundo. Tudo o que é mundifica. Eva era Eva, mais a maçã, mais a serpente.
                O touro escapa, o touro entra em erupção. O touro – negro - contempla a casa. O touro é a casa. A menina morta monta nua o touro: uma maçã, uma rosa vermelha nos cabelos; gozo... E morangos silvestres. O touro amanhece um menino. Ele se chama Kan, é o filho do meio; ela se chama Tui é a filha mais nova.

O OUTRO EM ERUPÇÃO

Era uma casa grande: oito portas e uma dúzia de janelas. Era uma casa antiga, para mais de duzentos anos, sustentada por colunas e vigas de madeira maciça lá do século XVIII ou XIX. A casa atravessa o tempo com a família dentro. No porão, encravadas nas pedras, ainda estavam as grossas correntes para prender escravo. Dizem que o bisavô era severo com negro fujão; gostava de aplicar os castigos nas dependências da casa e a casa se fortalecia com isso, ganhava sua alma, seu poder também daí. Não é só com sorrisos e fotografias que se constrói uma família. Aquilo que dói, aquilo que esfola, é transmitido entre as gerações; torna-se a memória de um clã. Ancestralidade é um dos nomes do carma. Havia, na casa, uma sala com doze cadeiras espalhadas, encostadas às paredes; sobre cada uma dessas cadeiras vazias, o retrato amarelado de um parente morto. Ancestralidade também é carma. Havia ainda outra sala, com uma mesa longa, rústica, de madeira preta. Os quartos eram quatro. No menor deles dormiam o pai e a mãe. Os três rapazes, cujas idades variavam entre vinte e um e quinze anos, dormiam no mesmo quarto. As meninas, também eram três, dividiam o outro quarto. Havia ainda um quarto de hóspedes que estava sempre desocupado; uma vez que, havia muitos anos, ninguém visitava a casa. Uma cozinha enorme onde, desde manhã cedo, o fogo crepitava completava a casa.
                Em tempos remotos, mais de duzentas pessoas trabalhavam na fazenda, subindo e descendo os morros, cuidando do cafezal. Agora os pés de café tinham desaparecido dos morros. Quando setembro chegava, o cheiro de café perfumava o ar, mas a plantação estava perdida no meio da mata. A casa, a família e o touro estavam apartados do mundo. Assim que o dia amanhecia, o pai, mesmo sem enxergar, chamava os rapazes e seguiam juntos para a roça. Plantavam o que sustentava a existência. Não havia luxo. Aos domingos, o pai e a menina mais nova, Tui, iam à feira vender o excedente, quando excedente havia. Em determinadas épocas do ano a comida precisava ser racionada, quase passavam necessidade, mas havia a farinha de mandioca, a rapadura, o fubá.
                Uma noite, o filho do meio dormiu e sonhou com um abismo, estava calor, mas ele tremia e batia os dentes como se estivesse com febre. O sagrado vem em forma de frio. De dentro do abismo, saía uma luz proveniente de um tesouro: um touro em tamanho natural todo feito de ouro. No sonho, Kan viu com riqueza de detalhes o lugar onde o tesouro estava enterrado. Já tinha passado por aquele lugar. Ficava a três ou quatro dias de viagem rumo ao sul. O pai, porque era cego, intuiu o sonho do filho. Ele, o pai, tinha ciência de tudo; sempre. O frio era uma corrente que ligava ao filho o pai.
                Chamou o filho do meio e a filha mais nova, sua menina preferida.
                - Soube que vocês vão em busca do tesouro.
                - Ainda não é certo.
                - O tesouro só pode ser encontrado na noite de sexta-feira da paixão. E só pode ser manuseado por alguém puro de coração. Se aquele que tocar o tesouro tiver um único pensamento egoísta, um único pensamento impuro neste momento sublime, será dissolvido imediatamente. O tesouro está desde sempre no mesmo lugar, mas só poderá ser encontrado na noite da agonia de nosso senhor. Nessa noite ele emitirá aquela mesma luz que você viu em seu sonho.
                - Mas, pai, foi só um sonho. Não sei se isso tem algum valor...
                - Lembre-se: aquele que quiser reter, perderá; mas quem partilhar terá tudo em dobro. É preciso ser maleável, meu filho, as árvores mais altas envergam-se, mas não se quebram com o vento. Se o mundo ao seu redor desmoronar, mantenha-se na vala.
                Em seguida o pai tirou suas vestes e entregou-as ao filho que, imediatamente, despiu-se e vestiu a túnica do pai e colocou na cabeça o chapéu do pai.

ONDE ESTÁ O TEU TESOURO AÍ ESTARÁ TAMBÉM TEU CORAÇÃO

Kan tinha a capacidade de amar em silêncio. Tinha medo de ferir tocando, porque conhecia em si o touro. Tui sabia o amor do irmão, mas era toda pureza, como um riacho raso de águas cristalinas, peixes coloridas no fundo e pedras arredondadas. Tui não sabia tramar, era toda generosidade. Ela morreria de sede para dar água a alguém que também estivesse sedento. Kan sabia a generosidade, mas era homem, também água, mas abismal e o abismo tanto podia engoli-lo, quanto engolir tudo ao seu redor. Tudo é um: Kan era Kan mais Tui, mais seus outros irmãos, mais seus pais, sua cidade e mais toda a raça humana. O significado da vida é o caminho e o tesouro, mas cada pessoa só tem uma trilha que leva ao seu tesouro. É fácil demais se perder pelo caminho, cometer suicídio, desencaminhar-se.
                A viagem que demoraria três dias, acabou demorando mais de uma semana. Seguiram o rio, mas choveu muito por aqueles dias e o rio encheu, arrastando tudo às suas margens. Um tronco levado pelas águas acertou Tui ao meio, quase a levou embora, quase partiu a menina em uma, mas o irmão, abismal, conseguiu segurá-la e salvou-a e cuidou dela com os medicamentos que a mata oferecia. Ficaram dois dias descansando na casa de uma velha, negra, que morava só no meio da mata. Por sorte, chegaram ao ponto exato onde Kan havia sonhado, o tesouro estaria bem ali e era a tarde da sexta-feira santa. Cavaram, mas nada havia. Um buraco é cheio de silêncio. Cavaram em outros lugares. O tesouro salvaria a fazenda, a vida e a família.  Era impossível, a terra era terra e só. Já cansados do esforço, o irmãos adormeceram abraçados e desiludidos. Tudo seria ruína e só ruína. Alguns encontram o tesouro que lhes é destinado e outros não. A vida é isso. Que é justiça universal? O que é Deus? Durante a noite, a visão de um moço muito branco acordou Tui. Ele vinha com mais dois outros homens; todos eles profetas. Ele apontou uma cova que os próprios irmãos já tinham cavado. A cova emitia luzes azuis e vermelhas em forma circular. Ela, Tui, olhou para o irmão e viu que no peito dele havia também um círculo vermelho e azul - carne e espírito - feito da mesma energia que provinha da cova onde o tesouro, o touro todo feito de ouro, descansava. Tui acordou o irmão. Sabia que seu coração era feito de um pedaço do tesouro e que só ele podia retirar o tesouro; um touro todo feito de ouro em tamanho natural pesa muitas toneladas.
                - Veja – ela disse e apontou a luz.
                Kan olhou para o próprio peito e viu que brilhava. Sentiu-se forte e confiante, mas não compreendeu que para assenhorar-se do tesouro, primeiro era preciso assenhorar-se de si mesmo. O grande tesouro não está fora, é só consequência.
                Kan começou a puxar o touro de ouro para fora do abismo, mas o touro em erupção fascinou-o - as igrejas medievais têm gárgulas guardando a entrada – e um pensamento atravessou o coração semi-puro do irmão do meio. Quem pode lutar contra um pensamento? Seriam necessários muitos anos de meditação e treinamento para que Kan pudesse evitar a erupção de um pensamento assim, mas ele não tinha mais que alguns segundos:
                - E se eu ficasse com o tesouro? – Sussurrou. - Tenho direito; afinal, foi eu quem o encontrou. O sonho foi todo meu e só meu – era o Mal, as gárgulas que impediam a entrada no paraíso.
                Neste exato momento, com as mãos ainda nos chifres do metal, Kan, o filho do meio, o menino da água e do abismo, tornou-se poeira. Tui entristeceu-se. Chorou, mas ainda com lágrimas nos olhos tentou puxar o tesouro do buraco. Para sua surpresa, o touro de ouro pesava menos que a mão de uma criança. Ela o carregou de volta à fazenda com uma facilidade que surpreenderia ao mais forte dos homens.
                Em casa, partiu o touro em touros menores, todos de ouro e o dividiu com os irmãos, com o pai, com a mãe, com todos os moradores do vilarejo que espalharam pelo mundo seus pequenos touros dourados. Kan, o irmão que errou, já não existia com limites definidos, mas se manifestava em cada gesto da irmã, que todas as pessoas daquele lugar diziam ser uma santa e ela, de fato, era uma santa... Uma santa que primeiro se chamou Tui, depois Joana, depois Geralda, depois Márcia, depois Maria, depois Tatiane. Depois, Oração, simplesmente, como um menino frente a Deus.




quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SOBRE A CAIXA DE FERRAMENTAS

Ouvi dizer que certos monges no Himalaia atravessam semanas e semanas para construir a mais bela mandala de areia... Quando a mandala, enfim, fica pronta; eles, prontamente,  destroem-na. Não há homenagem maior à impermanência das coisas, ao fogo, ao rio, à atividade em si e não ao resultado: Heráclito anda por aí e o wu wei também. Logos é o Tao do ocidente. A lição que fica para o artista aqui é o desapego, o gosto por dar forma: o ovo é o caos do pássaro, sem vaidade e sem esperar resultado. A orquídea não floresce por causa do olho humano, embora o olho humano saiba guardar a beleza. Mas, por que é que escrevi isso tudo mesmo, hein? Ah, sim! Eu também escrevi um livrinho intitulado A delicadeza dos hipopótamos, no qual, basicamente, um filho volta à cidade onde nasceu para tomar o lugar do pai... Mesmo sem saber, mesmo contra a vontade, mesmo sem ter filhos; um dia, nós também nos tornamos o pai.
Meu pai sempre teve habilidade para trabalhos braçais... Trabalhava em metalúrgica, mas faz, desde sempre, trabalhos de pedreiro, eletricista, marceneiro, encanador; e, quanto maior o desafio, melhor. Já com mais de sessenta e cinco anos levantou, praticamente sozinho, um sobrado de sete cômodos nos fundos de casa. Quando alguém perguntava para que ele estava fazendo aquilo, naquela idade, quem iria morar lá, ele respondia sereno:
- Tenho netos, mas não sei. Meu trabalho é fazer...
Quando precisava fazer algum trabalho na minha própria casa, sempre chamava meu pai...  Nunca tive tempo ou vontade. Quando eu mesmo tinha de fazer o serviço, caminhava até a casa do velho e pegava a ferramenta necessária emprestada. Ele ficava puto. Um homem tem de ter suas ferramentas! Pois bem, aos poucos, fui tomando gosto em arrumar as coisas, em colocar tudo nos seus devidos lugares. A vida fica mais fácil com um pouco de organização e Deus não entra em casa suja. Então, dias atrás, fui até uma casa de materiais para construção e comprei uma furadeira, um martelo, a marreta, uma caixa de ferramentas completa, parcelada em três vezes no cartão. Gosto de escrever e, enfim, percebi que escrever e consertar as coisas quebradas que encontro pelo caminho são trabalhos semelhantes.

domingo, 1 de outubro de 2017

OUTUBRO

Ando pensando em Alberto Caeiro: “Há metafísica bastante em não pensar em nada.” - e em Martin Heidegger. O mundo em si é simples, se aceitarmos o mistério. É preciso não ter filosofia para compreender as coisas. Talvez por isso o Rosa tenha recorrido aos jagunços, às crianças, aos cangaceiros; eles é que são os sábios. A sabedoria é natural. Há quem tenha sabedoria, mas não conhecimento. Há quem tem conhecimento, mas não sabedoria. E há os raros que têm tanto conhecimento quanto sabedoria... Lao Tsé: “Conhecer reconhecendo a ignorância fundamental é saúde mental.” O problema é que já chegamos às coisas com as lentes sujas. Desde a infância, na escola, o humanismo deposita conceitos e mais conceitos em nós... E, quando chegamos às coisas recheados de conceitos, perdemos as coisas porque projetamos a nós mesmos em tudo o que vemos. Contaminamos tudo! Estamos tão mergulhados na complexidade, que, quando dizemos as coisas mais simples, como fez Heidegger, parecemos complexos. Quando perdemos a naturalidade, sofremos e, quando sofremos, tornamo-nos Midas, tudo o que tocamos – com o ouro da razão – destruímos. Olha o Rio Doce. Outro dia vi uma reportagem. Destruímos o rio; mas a natureza, aos poucos, se reconstrói. Basta deixar o Rio quietinho e, em alguns anos, o teremos vivo de novo. Mas este é nosso grande desafio: ficar quieto, deixar as coisas quietas... Temos a impressão de que temos de estar o tempo todo fazendo alguma coisa, é um modo de não lembrarmos nossa finitude, nosso nada... Mas, ao não nos aquietarmos, vamos violentando as coisas. E, depois, quando aparecemos com as soluções, as conquistas da tecnologia e das ciência$, esquecemos que boa parte delas são soluções para problemas que nós mesmos criamos – é um círculo vicioso – ainda que a aspirina seja uma tremenda invenção, como percebeu o João Cabral.

sábado, 30 de setembro de 2017

SERENIDADE

(para Nivaldo Ornelas)
Feito gatos
os pensamentos vêm se alojar no meu regaço.
Não me apego a eles.
Observo-os.
Acaricio a cabeça deles.
E, um após o outro,
deixo-os passar.
Eu não sou meus pensamentos,
Sou o sopro.